O protagonismo das mulheres na medicina brasileira e cooperativista

Publicado em: 12 maio - 2021

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A evolução da medicina sempre foi imprescindível para o desenvolvimento da humanidade, fazendo com que o setor de saúde se tornasse a base da sociedade e, assim, acompanhasse todas a suas transformações. Hoje, o sistema de saúde público, privado e, principalmente, cooperativista ganhou novos moldes e tem sido um importante espaço também para a promoção de oportunidades, igualdade e protagonismo.

De acordo com uma pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina da USP, desde 2009 o número de mulheres que ingressam na medicina no país tem sido maior que o de homens. Entre os profissionais com menos de 29 anos de idade, as mulheres já são a maioria. A pesquisa estima ainda, que até o ano de 2028, haverá um equilíbrio entre mulheres e homens no exercício da medicina brasileira.

Ainda, um levantamento recente realizado pelo IPEA, constatou que, no Brasil, a participação médica na luta contra a Covid-19 contou com a atuação de 47,5% de mulheres. Em relação à prática de enfermagem, o quadro feminino representa, aproximadamente, 85%. Esse dado ilustra perfeitamente como a mudança de cenários é essencial e traz o papel feminino no setor como marca evidente.  

Para saber mais sobre esse contexto a partir da perspectiva de quem está ocupando esse espaço diariamente, a MundoCoop conversou, com exclusividade, com a Dra. Karla Toribio Pimenta e a Dra. Vera Lúcia Lauar, ambas atuantes dentro do Sistema Unimed. Elas falaram sobre o panorama atual, o impacto da participação feminina, o diferencial do cooperativismo de saúde e suas visões a partir de suas grandiosas experiências na medicina.

Venha conferir!

Vocês acreditam que a perspectiva de gênero é essencial para o combate às doenças e mudanças no sistema? Já conseguiram observar essa questão na prática durante sua jornada?

KARLA – Com certeza, não apenas quando se trata de perspectiva de gênero, mas de diversidade em geral, há muitos ganhos em todos os contextos. E isso não é diferente quando falamos de combate às doenças e mudanças no setor, pois todos podem contribuir com experiências e conhecimentos fundamentais para o desenvolvimento da Medicina e da Saúde Suplementar. O que defendo é que as mulheres conquistem seus espaços pela competência, dedicação, pelo trabalho e as habilidades múltiplas que possuem. Vejo ao longo desses muitos anos de profissão, mulheres ocupando cada vez mais espaços na Medicina e em outras áreas, mostrando seu potencial em todos os setores e em cargos de liderança, tendo mais voz e posicionamento respeitados. É claro que ainda temos muito a avançar. O que posso afirmar é que na Unimed Vitória, onde atuo diariamente, nossa gestão oferece cada vez mais oportunidades para lideranças femininas. Elas ocupam 76% dos cargos de gestão. E o mesmo se dá na cooperativa nacional, em que 59% dos cargos de liderança são ocupados por mulheres e onde a última gestão proporcionou a maior inclusão feminina, culminando com participação de uma mulher no Conselho de Administração, cargo que ocupo. Sinto-me honrada em ser a única diretora da Unimed Vitória e primeira mulher a integrar o Conselho de Administração da Central Nacional Unimed, em toda a sua história. Sem dúvida, é um reconhecimento do trabalho que venho realizando durante toda minha vida.

VERA – O cuidado da saúde é diferente do cuidado da doença e neste quesito a mulher tem historicamente uma habilidade especial, pois desde sempre era ela a responsável pela alimentação da família, o preparo dos alimentos, o cuidado com as crianças e idosos, com a higiene das pessoas e do ambiente. Isso criou uma cultura que permanece até hoje. Com o advento da Medicina contemporânea, a mulher, agora com um cabedal acadêmico, deu prosseguimento àquela cultura milenar de cuidados, traduzido pelas funções que exercia no complexo saúde-doença. Vê-se que as especialidades que ocupam estão majoritariamente voltadas à saúde, para o ser humano integral. Isto é válido para as profissões de médica, enfermeira e tantas outras dentro da saúde.

Quais foram os principais fatores que fizeram vocês escolherem o modelo cooperativista para exercer a Medicina? Qual o diferencial das cooperativas médicas, tanto para as profissionais quanto para a população?

KARLA – Quando nos unimos em busca do bem comum, focando no equilíbrio e na promoção de melhores oportunidades para todos, isso é cooperativismo. Esse modelo é democrático, incentiva a economia colaborativa, tem compromisso com o desenvolvimento econômico, com o bem-estar social e com o meio ambiente. A cooperativa médica é a nossa última trincheira, neste cenário tão incerto e sujeito a mudanças como o mercado em que estamos inseridos. É sinônimo de segurança e oportunidade de trabalho. Sinônimo também de qualidade de atendimento e de respeito aos cooperados, colaboradores, clientes e parceiros. Somos regidos por princípios nobres que visam um olhar para todos ao seu entorno e não apenas seus associados e acredito muito que é isso que torna esse modelo de negócio um sucesso. Escolhi esse caminho há 24 anos por acreditar nesse modelo. Na Unimed Vitória e na Central Nacional Unimed, por exemplo, apesar de terem atravessado um ano desafiador de pandemia, ambas conseguiram os melhores resultados de suas histórias. Isso é fruto de gestões sérias, que valorizam o cooperado e que se dedicam integralmente ao cliente.

VERA – É só estudar o homo sapiens e comprovamos que foi a cooperação que permitiu que nossa espécie vencesse o ambiente e chegasse onde estamos hoje, no ápice. Não existe espécie mais desenvolvida que o ser humano. Desde aquela época ficou claro para o então primitivo ser humano, que viver isolado era perigoso, correndo riscos de extinção da espécie. Esses milhares de anos cooperando biologicamente e socialmente permitiram chegarmos onde estamos. Não foi pela competição e sim pela cooperação, e continua sendo.

“Logo essa separação homem-mulher será secundária pela igualdade alcançada” – Dra. Vera Lúcia Lauar

Qual a importância da liderança feminina dentro dos hospitais e do empoderamento da mulher no setor de saúde no Brasil? Como incentivar a presença feminina efetivamente?

KARLA – A liderança feminina é, sim, muito importante para avançarmos no assunto igualdade. O mundo vem evoluindo e no nosso Sistema não é diferente, felizmente. Sinto essa preocupação em abrir cada vez mais espaços e permitir maior participação feminina. As mulheres se destacam por sua competência, comprometimento e por saberem dosar razão e sensibilidade na tomada de decisões. São múltiplas, têm uma visão holística, perseguem metas e se dedicam à entrega. A área de saúde só tem a ganhar com a gestão feminina, que tem foco em processos, qualidade, segurança, compromisso com a melhor jornada do paciente, empatia, capacidade de aglutinação e acolhimento, que só agregam aos times internos e fazem total diferença nos desafios do dia a dia. E acredito que o maior incentivo à liderança feminina acontece quando temos uma gestão transparente, que valoriza a meritocracia, que enxerga homens e mulheres com habilidades iguais, nem melhores, nem piores, criando oportunidades de crescimento e desenvolvimento para todos. Os espaços devem ser conquistados pelo trabalho, pelo mérito e mantidos pelos bons resultados obtidos. Este ano temos uma mulher concorrendo a vaga de presidente da Unimed Brasil, isto é inédito. Precisamos avançar!

VERA – A mulher já exerce liderança não somente nos hospitais, mas também em outras esferas ligadas à saúde, como na pesquisa científica e ensino. A cada ano temos mais mulheres em postos importantes em hospitais, laboratórios e universidades. Agora é manter o que foi conquistado e continuar aprimorando-se para fazer jus aos cargos e funções. Isso empodera. Se observarmos ao longo dos últimos 100 anos, saímos de uma “não existência” na área da saúde, passamos pela desconfiança da nossa capacidade, chegamos na fase de aceitação e estamos passando pela fase de admiração pelas nossas conquistas. Logo essa separação homem-mulher será secundária pela igualdade alcançada. Com isso, todos ganham.

Vocês consideram o crescimento do número de mulheres na Medicina como a representação da evolução do mercado, principalmente o cooperativista?

KARLA – Ao longo da história algumas profissões foram consideradas tradicionalmente masculinas, como a Medicina. Com o tempo, as mulheres começaram a mudar este cenário, até mesmo impulsionadas pelos movimentos feministas, e ultrapassaram os limites anteriormente impostos. As mulheres aumentaram sua representatividade em diversas profissões e o mesmo se deu na Medicina. É uma evolução natural do mercado e este fato contribui para o amadurecimento da profissão e qualidade da assistência. É natural que assim seja. Vemos muitas mulheres se destacando no setor empresarial, no meio jurídico e brilhando também na Medicina, tanto dedicadas à assistência ou enquanto gestoras. Cito como exemplo, inclusive, a capixaba Margareth Dalcomo, que foi nossa grande referência quando o assunto é Covid-19 e foi eleita uma das personalidades do ano de 2020.

VERA – Sim, na Medicina e no cooperativismo vemos isso. A mulher avançou muito, principalmente nos últimos 30 anos, não somente pelo número delas no mercado, mas também pelos cargos e funções que exercem, cada vez mais complexos.

“Há cada vez mais espaço para as mulheres” – Dra. Karla Toribio Pimenta

Nós vemos uma grande participação feminina nas equipes de frente no combate ao coronavírus. Quais são os principais desafios enfrentados no dia a dia, principalmente durante a pandemia do Covid-19?

KARLA – Claro que foram muitos os desafios para os profissionais da saúde em geral. Homens e mulheres. Uma dedicação extrema, superação, muitas vezes colocando a própria vida em risco e a família em segundo plano. Como diretora de Recursos Próprios da Unimed Vitória, tive o desafio de cuidar de todas as transformações que o momento exigia, sem perder a qualidade e o nosso Jeito de Cuidar. Conseguimos tudo isso graças a uma equipe muito competente, que não mediu esforços e dedicação. Certamente foi o maior desafio profissional de nossas vidas, e ainda estamos enfrentando um momento muito delicado e desafiador.

VERA – O que estamos enfrentando certamente nunca tínhamos vivenciado antes. Muitas vezes o esgotamento mental supera o físico. A sobrecarga de trabalho certamente tem sido o nosso maior desafio. Com a fé que temos em Deus, dia após dia, temos vencido o medo e as deficiências do setor da saúde. Lutamos contra o desconhecido com a maior arma que temos, o amor. Buscamos a ciência para salvar vidas! Sofremos com todas as famílias, a cada perda. Superamos o excesso de trabalho a cada alta e, certamente, não seremos os mesmos após este período de guerra.

O que você diria hoje para outras mulheres, médicas ou enfermeiras, do setor e para aquelas que estão ingressando na carreira?

KARLA – Digo sempre para seguirem em frente. Abram portas, qualifiquem-se, rompam barreiras e assumam desafios. Não há limite para uma mulher preparada e determinada. E não nos esqueçamos de torcer e de vibrar umas pelas outras, nos ajudando, seja no cooperativismo ou na vida. Acredite em você, coloque amor, alegria e paixão em tudo o que fizer, vai dar certo!

VERA – Olhar para o futuro e enxergá-lo mais humano, mais sensível e democrático, mais cooperativo e saudável, nos permitirá planejar e, principalmente, agir no sentido de criar e manter condições para alcançarmos esse futuro tão almejado. Com isso em mente, tendo clareza das nossas possibilidades, nossas potencialidades, da nossa força e trajetória, agir para que essa história se escreva melhor. Preparando-se individualmente e cooperativamente em termos técnicos, organizativos e políticos.

Conheça mais sobre elas!


Dra. Karla Toribio Pimenta

Graduada em Medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo – UFES, com residência médica em Pediatria e Terapia Intensiva Pediátrica, e MBA em Gestão de Organizações Hospitalares e Sistemas de Saúde.

É preceptora da residência médica em Pediatria na Enfermaria do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes, em Vitória (ES), e Diretora Técnica no Hospital Metropolitano, em Serra (ES).

Na Unimed Vitória, atua como coordenadora da Unidade de Assistência Domiciliar, Diretoria Técnica do Centro Integrado de Atenção à Saúde e Diretora de Recursos Próprios. Também é membro do Conselho de Administração da Central Nacional Unimed, eleita em 2019, primeira figura feminina a integrar o conselho em toda sua história. É também casada e mãe de duas filhas.


Dra. Vera Lúcia Lauar

Médica formada pela Universidade Emescam, de Vitória (ES), com residência em Pediatria pelo Hospital Infantil Nossa Senhora da Glória, também na capital do Espírito Santo. Na cidade de Teófilo Otoni (MG), atua como médica pediatra na UTI Neonatal do Hospital Santa Rosália, plantonista na Unidade de Pronto Atendimento Unimed e médica perita do INSS, desde 2011.

Cooperada da Unimed Três Vales desde 1996, em sua trajetória cooperativista exerceu os cargos de Diretora Presidenta (2002-2004), Diretora Administrativa (2008-2010) e Diretora Financeira (2018-2020) na Unimed Intrafederativa Leste Nordeste (MG).

Na Unimed Três Vales já atuou como Diretora Administrativa (1999-2002), Diretoria Presidente (2002-2012), coordenadora da Auditoria (2012-2015), Diretora Médico Social (2015-2018) e atualmente ocupa novamente o cargo de Diretora Presidente (2018-2021), do qual orgulha-se representar e foi reeleita no último dia 12 de março, para permanecer até 2024. É ainda noiva e tem uma filha.


Por Fernanda Ricardi e Jady Mathias Peroni – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 99



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