O próximo salto do agro no Brasil

Publicado em: 12 maio - 2021

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Ao longo das últimas décadas, o agronegócio apresentou seu potencial de crescimento ampliando sua produtividade e comercialização através do investimento em inovação. E, por traz dessas conquistas, é possível observar a participação de várias camadas que fazem o setor ser um dos mais representativos no país.

Ciência, pesquisa, investimento, produtores rurais, cooperativas. Todos esses (e mais) pontos formam o ciclo produtivo do agro que, em 2020, conquistou uma expansão recorde de 24,3% para 26,6% em sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.

Pensando em entender mais sobre os próximos saltos da agricultura e pecuária brasileira, a MundoCoop conversou, com exclusividade, com o Presidente da Empresa de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Celso Moretti, que além de abordar os principais fatores que fizeram o setor crescer, falou também sobre pautas como sustentabilidade, o grande potencial do Brasil de alimentar o mundo e, é claro, a essencialidade da participação das cooperativas para o desenvolvimento! 

Confira!

MundoCoop: O agronegócio ganhou muita força no ano de 2020 e muito de seus resultados vem da melhora na produção de alimentos. Quais foram, na sua opinião, os principais fatores que instigaram esse crescimento? 

Ao analisarmos o crescimento do agronegócio nos últimos anos, e não somente em 2020, observamos que por trás deste crescimento tem muita pesquisa, muita ciência. Ao longo das últimas cinco décadas, por meio da ciência, inovação e parcerias com o setor produtivo, o Brasil foi capaz de criar um modelo sustentável e competitivo de agricultura tropical, sem paralelo no mundo. Não tem outro país no cinturão tropical do globo que tenha feito uma revolução na produção de alimentos, fibras e bioenergia como o Brasil, e nós entendemos que a ciência, a pesquisa agropecuária feita na Embrapa, nas universidades, institutos e organizações estaduais, junto com o produtor, o setor privado, com o apoio do parlamento, fez essa verdadeira revolução no Brasil. Saímos da condição de importador e alimentos, na década de 1970, para um grande player global na produção de alimentos e fibras. E a pesquisa funcionou como uma locomotiva que veio limpando os trilhos para que o setor privado, ágil, pujante e empreendedor, viesse atrás fazendo as coisas acontecerem. Se eu pudesse sumarizar em 3 grandes pilares o que foi feito eu diria o seguinte: primeiro, nós transformamos os solos ácidos e pobres do cerrado brasileiro em terra fértil, estamos falando aqui em mais de 200 milhões de hectares de cerrado dentro desta transformação.  Em segundo lugar, tropicalizamos plantas e animais, por exemplo, trouxemos a soja da Manchúria, na China, trouxemos forrageiras da África, trouxemos o gado europeu e indiano e adaptamos às condições de trópicos e, agora, mais recentemente, estamos fazendo isso com o trigo, onde a Embrapa tem feito um trabalho de adaptação de cultivares para plantio na região Centro-Oeste. Acredito que em breve também seremos grandes produtores de trigo, que deixou de ser um plantio da região Sul e de áreas mais frias, para ser cultivado em larga escala no Centro-Oeste, algo semelhante ao que aconteceu com a soja na década de 1980. O terceiro pilar que gostaria de destacar é o desenvolvimento de uma produção sustentável, baseada em tecnologias como a Fixação Biológica do Nitrogênio, o plantio direto na palha, o controle biológico de pragas e doenças das plantas, os sistemas sustentáveis, com cada vez mais áreas agrícolas sendo cultivadas na modalidade de Integração Lavoura-Pecuária-Florestas. Com o apoio da ciência e a parceria dos produtores rurais, estamos mostrando ao mundo que a agricultura brasileira é moderna, tecnológica, competitiva e sustentável.

MundoCoop: A inovação na agricultura vem se intensificando cada vez mais, principalmente com a chegada do Agro 5.0 no país. Afinal, quais são as principais tendências para o futuro e como essas novas tecnologias podem influenciar na agricultura brasileira? 

Ao falarmos sobre as perspectivas e tendências para o futuro, precisamos considerar que, em 2030, seremos mais de 8,5 bilhões de pessoas. Vamos ter mudanças na urbanização, renda, longevidade, padrões de consumo, aumento da ordem de 30% na demanda de energia e água. Mais uma vez as tecnologias terão de estar ao nosso lado para enfrentar essas demandas. A agricultura de baixo carbono e as ações de mitigação de mudanças climáticas continuarão sendo de grande relevância no cenário mundial. E o Brasil poder ser o grande protagonista, pois possui um importante plano coordenado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – o chamado Plano de Agricultura de Baixo Carbono ou Plano ABC, referência em todo mundo em agricultura de baixo carbono. Ainda nessa linha de perspectivas para o futuro, também precisaremos seguir investindo em tecnologias para apoiar a defesa agropecuária, a produção de bioinsumos, a edição de genomas para a adaptação e resistência à seca, pragas e doenças dos cultivos, os sistemas de produção sustentáveis (como a tecnologia da Integração Lavoura-Pecuária-Floresta) e a agricultura digital, que já é uma realidade hoje, porém ainda precisamos vencer o desafio da conectividade no campo. Esses são alguns pontos a serem considerados para trilharmos com sucesso o caminho para 2030. Realizamos recentemente uma pesquisa sobre as tendências, desafios e oportunidades para a agricultura digital no Brasil, uma parceria entre a Embrapa, o Sebrae e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O estudo revelou que 84% dos agricultores brasileiros já utilizam ao menos uma tecnologia digital como ferramenta de apoio à produção agrícola. Saímos de uma situação de mono usuário de computador, da internet comercial, do computador central, da pesquisa adaptativa, para uma situação de sistemas integrados e complexos, Big Data, Internet das Coisas, robótica, drones, sensores e pesquisa sistêmica. A Embrapa tem participado ativamente deste processo. Quase todos os nossos centros de pesquisa têm trabalhado fortemente no desenvolvimento de tecnologia e apoio à agricultura digital. Posso citar como exemplos pesquisas com o uso de sensores que medem a temperatura do animal e avaliam o conforto térmico sob sol ou sombra, dentro do sistema ILPF, a detecção de doenças, recontagem de frutos, medição de características em animais, simulação de fenômenos, previsão de safras, monitoramento de logística e transporte, rastreabilidade e suporte à tomada de decisão do produtor. É uma nova realidade, e incentivar a conectividade no campo é fundamental para o aumento da produtividade do agro. Por isso, também fazemos parte da Câmara do Agro 4.0, uma das iniciativas do governo federal para a expansão da internet no meio rural. Uma instância nova, coordenada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). O objetivo é estabelecer estratégias para implementar a conectividade no campo e ampliar a adoção de tecnologias digitais, envolvendo instituições do agro, como a Embrapa, e também as empresas de tecnologia de comunicação. Este também é um dos nossos objetivos no VII Plano Diretor da Embrapa (VII PDE).

MundoCoop: As cooperativas agro vem se estabelecendo como grandes alicerces do setor. Você acredita que os diferencias estratégicos e de gestão do cooperativismo podem trazer benefícios para o ramo agro? Como elas podem crescer ainda mais no mercado?

Com certeza, o movimento cooperativo ocorre em todo o mundo e vem como um mecanismo fantástico para proporcionar ganho de escala para o alcance do mercado, além de mitigar situações de crises e dificuldades. No Brasil, a rede das cooperativas é uma realidade na vida dos brasileiros. Os dados recentes do último Censo Agropecuário (2017), indicaram um crescimento do setor de mais de 67% em relação ao censo agropecuário de 2006 e a tendência é por um crescimento ainda maior. São 579,5 mil estabelecimentos agropecuários associados a cooperativas, algo em torno de 11,4% do total. Para nós da Embrapa, as cooperativas constituem forças poderosas de disseminação do conhecimento justamente por trabalharem com bastante proximidade com a nossa instituição, captando o conhecimento gerado pela pesquisa e disseminando aos seus cooperados. São centenas de cooperativas e cooperados sendo beneficiados pelas tecnologias da Embrapa. Nós treinamos e capacitamos os profissionais do sistema cooperativo que, por sua vez, se tornam multiplicadores. Também reconhecemos o importante papel das cooperativas como estratégia de negócio para os pequenos produtores que dificilmente conseguiriam alcançar o mercado sem o auxílio da cooperativa, pois quando os pequenos produtores se organizam desta forma fica mais fácil comprar insumos a um baixo custo e também conseguir melhores preços para o seu produto. Em outras palavras, as cooperativas auxiliam na solução das chamadas imperfeições de mercado. Assim como as agtechs, estão em constante crescimento e podem ser importantes elos para promover a inovação no sistema agropecuário no país, a partir da disseminação de informações da pesquisa agropecuária e da capacitação de seus associados. É importante essa sinergia entre a pesquisa agropecuária, as cooperativas e as agtechs, pois este arranjo poderá impactar ainda mais a produção de alimentos no Brasil e tornar o País, não só um exportador de alimentos, mas também de inteligência.

MundoCoop: Qual a estratégia para a formação de jovens e preparação de uma nova geração que se envolva na realidade e pesquisa agropecuária nas próximas décadas? Nesse contexto, as cooperativas podem ser grandes aliadas e alternativas para atrair a juventude?

Por possuírem um grande potencial de transformar e terem possibilidade de realizar mudanças na sociedade, os jovens são considerados atores estratégicos nos processos de desenvolvimento de um país. Por isso, as atividades agrícolas são extremamente importantes para incentivar a juventude a dar continuidade a essa grande revolução tecnológica que vem acontecendo no campo. Precisamos incentivá-los a permanecerem no campo produzindo e inovando.  Acreditamos que a modernização da agricultura, com o uso de ferramentas digitais e a maior conectividade são estratégias fundamentais para motivar esta nova geração a se envolver nas atividades do agro. Nesse contexto, as cooperativas, assim como as agtechs, que citei anteriormente, têm papeis fundamentais para promoverem inovações e contribuírem na formação técnica dos jovens, bem como promoverem sua aproximação com a pesquisa agropecuária. Também considero relevante o investimento nos currículos universitários. Precisamos formar profissionais com novo perfil, unindo Ciências Agrárias, Veterinárias e Florestais com Ciências de Dados, Ciências Cognitivas, entre outras. Precisaremos ainda explorar sinergias entre Agricultura e Cidades Inteligentes, o urbano e o rural. E a agricultura digital precisa servir como ferramenta de inclusão produtiva, tecnológica e social.

MundoCoop: Hoje, a agricultura e agropecuária do Brasil são as mais eficientes e sustentáveis do mundo. Pensando nisso, qual a importância de alinhar projetos e pesquisas junto aos produtores rurais na promoção da sustentabilidade e na capacitação da digitalização no campo? 

O alinhamento entre pesquisa agropecuária, sustentabilidade e digitalização no campo junto aos produtores rurais já é uma realidade. A Embrapa tem direcionado cada vez mais esforços de pesquisa para o desenvolvimento de novas tecnologias, práticas e processos que possibilitem o aumento da produtividade com sustentabilidade, considerando o uso de recursos biológicos para a produção de alimentos e outros produtos com maior inclusão social. Temas como a produção sustentável e a utilização de recursos de base biológica sempre participaram da estratégia da Empresa e estão presentes de forma expressiva no VII Plano Diretor, lançado em 2020. Este foco pode ser identificado também na programação de pesquisa da Empresa: organizada em 34 portfólios, de certo modo todos eles respondem direta e indiretamente para esses dois temas, com foco definido em assuntos como Sustentabilidade e Inclusão Social na Agricultura: “Inovação Social na Agricultura”; “Sistemas de Produção de Base Ecológica”; “Amazônia” e “Convivência com a Seca”. Além disso, pesquisas no tema têm sido desenvolvidas em diversas unidades da Embrapa, em todas as regiões do país, e estão focadas em criar alternativas para racionalizar o uso de recursos naturais finitos, bem como desenvolver tecnologias sustentáveis e socialmente apropriadas. Para exemplificar, podemos citar a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, onde em uma mesma área estão os componentes lavoura, pecuária e floresta, em sistema de rotação, consórcio ou sucessão. Visa atingir patamares cada vez mais elevados de qualidade do produto e preservação ambiental com competitividade. Tem sido adotado em todo o Brasil, com maior representatividade nas regiões Centro-Oeste e Sul. Atualmente, temos uma área estimada de 17 milhões de hectares no Brasil e nossa expecativa é que novas áreas sejam incorporadas. Com relação à digitalização do campo, a Embrapa tem avançado em uma série de estudos, conforme indicado anteriormente, para ampliar a adoção de tecnologias digitais, como drones, sensores, internet das coisas (IoT), visão e simulação computacional, dentre outros. Vamos precisar avançar ainda em tecnologias embarcadas, automação, transmissão e comunicação de dados e no uso de robótica. A baixa conectividade no campo segue, entretanto, sendo um grande desafio que o Brasil precisa vencer para que as tecnologias digitais sejam mais e melhor utilizadas pelos nossos produtores em todo o território nacional. Já passou da hora de construirmos uma estratégia brasileira de Inteligência Artificial. China e EUA já avançaram nisso e ainda temos uma avenida enorme no Brasil para seguir em frente.

MundoCoop: A participação do Brasil no mercado mundial deu um salto para 100 bilhões de dólares recentemente. Você acredita que, futuramente, o país possa ser fundamental para abastecer o mundo?

A produção brasileira já é fundamental para o abastecimento do mundo. Em apenas dez anos a participação do Brasil no mercado mundial de alimentos saltou de US$ 20,6 bilhões para US$ 100 bilhões, tendo como destaque carne, soja, milho, algodão e produtos florestais. O agro brasileiro é responsável por produzir uma quantidade de alimentos que atende a 800 milhões de pessoas em todo o mundo, e o país deve continuar ampliando sua contribuição para o abastecimento mundial a ponto de se tornar, nos próximos cinco anos, o maior exportador de grãos do planeta, superando os Estados Unidos. Até 2050 a produção brasileira de grãos poderá superar 500 milhões de toneladas, sendo ainda mais importante para a segurança alimentar do mundo. Existem muitas tecnologias com potencial de aumentar ainda mais a produção nacional, como melhoramento genético de sementes, mudas e raças, insumos eficientes e biológicos, máquinas e equipamentos da melhor qualidade e sistemas de produção sustentáveis como o plantio direto, a integração lavoura-pecuária e os sistemas agroflorestais. Além disso, o Brasil tem 160 milhões de hectares de pastagens e boa parte dessa área pode ser convertida para a produção de grãos e tem regime de chuvas regulares (como nos cerrados). Em suma, somos líderes mundiais em tecnologia tropical, temos agricultores competentes e terras disponíveis para agricultura sem precisar derrubar matas e florestas.

MundoCoop: Quais são as perspectivas da Embrapa para 2021 e os próximos anos?  

Para falar sobre as perspectivas da Embrapa para os próximos anos, eu gostaria de destacar o nosso VII Plano Diretor, que foi lançado no ano passado, inclusive com metas quantificáveis, e que estabelece quais são as prioridades da Embrapa até 2030. Foram definidos nove temas prioritários, que vão direcionar os esforços da Embrapa na próxima década: agricultura digital, rastreabilidade e logística associadas aos sistemas produtivos agrícolas, agregação de valor aos produtos e serviços agropecuários e agroindustriais, adaptação e mitigação frente aos efeitos da mudança do clima, aproveitamento e transformação de biomassa para energia renovável, bioprodutos, bioinsumos, desenvolvimento territorial sustentável, produtividade e sistemas de produção sustentáveis, segurança alimentar e nutricional, uso e conservação de recursos naturais e sanidade agropecuária. A partir desses nove temas prioritários, foram definidos 11 objetivos estratégicos, oito para a inovação e três para a melhoria de gestão e eficiência organizacional e 29 metas quantificáveis de curto, médio e longo prazo. Esse conjunto de indicadores foi construído a partir de uma ampla consulta ao setor produtivo, instituições de pesquisa, agricultores, governo, e, internamente junto aos empregados da Empresa. Como exemplo de metas associadas aos objetivos estratégicos, pode-se destacar as quatro metas estabelecidas para o alcance do objetivo voltado ao enfrentamento da mudança do clima: ampliar, até 2025, em mais 10 milhões de hectares as áreas com plantios de sistemas integrados de produção (atualmente são estimados 17 milhões); aumentar, até 2030, em 1 milhão de hectares a área de florestas plantadas com sistemas de produção no país; disponibilizar aos produtores rurais cinco sistemas de manejo desenvolvidos pela Embrapa e para o manejo sustentável de florestas naturais; e, até 2030, aumentar em 10% os benefícios econômicos de produtores que utilizam o Zoneamento de Risco Climático (Zarc) para o plantio. Outro exemplo de metas quantificáveis foram as estabelecidas para o objetivo “Agricultura Digital, Rastreabilidade e Logística Associada ao Sistema Produtivo Agrícola”: até 2025, a Embrapa e parceiros devem atuar no sentido de ampliar em 100% o número de usuários de aplicativos desenvolvidos pela Empresa como o Zarc Plantio Certo, o Bioinsumos, o Doutor Milho, o Suplementa Certo, Roda da Produção, entre outros. Para alcançarmos os resultados propostos vamos precisar contar com a parceria importante da rede de cooperativas que atuam no agronegócio, pois a pesquisa por si só não faz a revolução, precisamos de parceiros, como os produtores rurais, as empresas do agro, as universidades, as cooperativas, as agtechs e os órgãos de extensão rural.


Por Jady Mathias Peroni – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 99



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