Onde tem fidelização, tem crescimento

Publicado em: 07 julho - 2021

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Desde que as primeiras cooperativas surgiram no Brasil, muitas características do movimento se modificaram. Assim como a sociedade, as cooperativas precisaram se adaptar e abraçar os novos tempos, as novas tecnologias e claro, os novos cooperados que adentram o movimento a cada ano.

Hoje, um dos ramos de maior relevância dentro do cooperativismo é o agronegócio. Ao redor do Brasil, são milhares de produtores de agricultura familiar, que em pequena ou média escala, ajudam a abastecer o mercado, garantindo alimento de qualidade para milhões de pessoas, dentro e fora do Brasil.

Mas como o setor se tornou a potência que é hoje? Afinal, para que o sucesso de hoje fosse atingido, as cooperativas tiveram que passar por diversas modificações, de forma a se integrarem à cada momento que a sociedade passou. O que fez o cooperativismo agro atingir a magnitude que possui hoje?

Um dos fatores é, sem dúvidas, seus milhares de cooperados. Pessoas que diariamente fazem a máquina cooperativista funcionar, independentemente de sua posição dentro das cooperativas. E, nesse processo de integração entre cooperado e cooperativa, um fator desempenhou – e desempenha – um papel fundamental: a fidelização.

O desenvolvimento agro até aqui

Desde que o movimento cooperativista começou a tomar forma, as cooperativas agro se destacaram por possuírem um papel fundamental para a sociedade: a produção alimentícia. Hoje, países que possuem um cooperativismo agro forte, veem grande resultados do PIB, sendo fundamentais para o funcionamento da sociedade como um todo.

Fernando Degobbi, CEO da Coopercitrus

Segundo o relatório ‘O Novo Protagonismo das Cooperativas’, divulgado pela Markestrat Agribusiness, das 300 maiores cooperativas do mundo, 97 são do ramo agro. No Brasil, esse ramo representa quase 25% do total de cooperativas, sendo 1.223 coops agro segundo o levantamento. Para Fernando Degobbi, CEO da Coopercitrus, esse fenômeno de destaque do ramo agro não é algo recente.

“As cooperativas sempre tiveram papel relevante no mercado, com o processo de consolidação e integração de atendimento aos cooperados este modelo tem atraído cada vez mais os stakeholders, uma vez que não visa só o lucro, mas principalmente entregar valor aos produtores cooperados”, afirma ele.

O cenário, porém, é muito diferente atualmente. Se antes as cooperativas precisavam disputar espaço apenas com empresas e organizações maiores, hoje startups de todos os tipos buscam soluções que não sigam os modelos tradicionais de negócio.

Apresentadas como uma alternativa diante das chamadas “instituições tradicionais”, as cooperativas precisam constantemente buscar as melhores soluções para seus cooperados, de forma a continuar com um negócio atual e alinhado com a nova geração.

Diante desse cenário tão competitivo, foi preciso entender o cooperado, e o que é importante para ele. Na missão de continuar a expandir o seu alcance, as cooperativas buscam constantemente atingir um pensamento que se alinhe com seus cooperados.

“O ponto fundamental é entender o que de fato agregar valor. A cada dia surgem novas tecnologias e ofertas de serviços, consultorias e sistemas, cabe ao comitê gestor das cooperativas avaliar o impacto dessas soluções no modelo de negócio”, afirma Degobbi. Assim como em outros negócios, entender as necessidades do cooperado e da cooperativa, tornaram-se a peça-chave para que as atividades continuem a se expandir, algo que tornou possível termos um agro desenvolvido, assim como existe hoje.

Neivor Canton, Presidente da Cooperativa Central Aurora Alimentos

Mas então, como continuar relevante? Estamos falando de mais de 100 anos de história, que trouxeram mudanças sociais, mercadológicas e territoriais, em alguns casos. Como as cooperativas agro continuaram a ser elementos essenciais, inclusive aumentando a sua participação na sociedade? Neivor Canton, Presidente da Cooperativa Central Aurora Alimentos, ressalta o papel da busca pela eficiência nesse processo.

“Para se tornarem ou permanecerem relevantes as cooperativas precisam ser eficientes na consecução de seus objetivos, seja na oferta de serviços de qualidade ou na bem-sucedida operação de natureza industrial, comercial, creditícias, logística etc. O sucesso da cooperativa se traduz no pleno atendimento das demandas e necessidades do cooperado. Quando isso ocorre, ela se torna relevante”.

Modernização e profissionalização

Assim como em outros ramos, estar antenado com as mudanças externas, é fundamental para a sobrevivência da organização. Para isso, é preciso que recursos sejam destinados para essa modernização, que deve ser buscada nos mais diversos âmbitos. Em suas décadas de atuação, o cooperativismo agro viu diversos avanços, que perpassam as técnicas de cultivo, indo até a forma de gestão. Apenas com a atenção dada a esses itens, é que o setor conseguiu atingir o patamar que possui hoje.

“Um dos caminhos foi a profissionalização da gestão, a qualificação do corpo técnico e gerencial. Também foi essencial a capacitação do quadro funcional e a criação de programas de transferência de tecnologia para o quadro social. Verificou-se que os cooperados, quando bem liderados, aderem de forma crescente às tecnologias que promovem seu crescimento. Também ajudou a postura de abertura às novas tecnologias, adesão à transformação ambiental e leitura permanente do mercado”, nos conta Canton.

Se engana, porém, quem acredita que para se manter relevante, é preciso pensar apenas em atributos físicos. Nos dias de hoje, mais do que nunca, ações dizem mais sobre uma organização do que nunca. Nunca o cooperado esteve mais preocupado com os impactos de seus atos na sociedade. Tal mudança de pensamento, é possível afirmar, vem de uma nova geração de cooperados, que estão indo para o campo, trabalhar em busca de soluções mais ecológicas de fazer o agro acontecer. Por isso, além de pensar em investimentos em processos e maquinários, é preciso pensar no fator humano. E acima de tudo, integrar novas gerações ao movimento.

“O jovem quer o novo, almeja estar na vanguarda das mudanças e transformações desses novos tempos. A inclusão dos jovens é uma necessidade de perpetuação do cooperativismo e, ao mesmo tempo, é um desafio para que as cooperativas se mantenham atuais e relevantes”, afirma Canton. Hoje, são esses jovens – junto com uma geração já criada dentro do cooperativismo agro – que estão guiando esse novo momento do movimento. Graças a uma união entre gerações de cooperativistas, a participação do ramo agro na economia só se expande a cada ano, com cooperativas conquistando fatias expressivas do mercado nacional e internacional, como Canton faz questão de destacar.

O papel da fidelidade ao movimento

Começar um movimento não é fácil, ainda mais quando o objetivo é mudar a vida das pessoas. O cooperativismo é, em sua essência, a junção de um grupo de pessoas em prol da busca de um bem comum. Pequenos grupos, que ano após ano, apenas aumentam ainda mais. Hoje, já são mais de 990 mil pessoas que integram apenas cooperativas agropecuárias no Brasil (segundo o relatório da Markestrat). São pessoas que diariamente fazem o movimento funcionar, fornecendo alimentos, insumos, serviços e muito mais. No Brasil, e em diversos outros países, as cooperativas agro possuem uma força expressiva, sendo essenciais para a sociedade como um todo.

Mas como manter os cooperados unidos ao movimento? Afinal, tempo gera desgaste, e muitas vezes pessoas deixam os movimentos de onde fazem parte, por motivos diversos. De forma a combater a evasão de cooperados, os programas de fidelização tornaram-se uma peça-chave para que as cooperativas mantenham os seus cooperados dentro de suas instalações. Se no passado ter essa fidelidade era um problema, hoje o que se vê são cooperados cada vez mais comprometidos com as cooperativas das quais fazem parte. Para Neivor Canton, essa mudança de cenário é resultado de ações das próprias cooperativas, que passaram a entender o problema, buscando soluções para resolvê-lo.

“A taxa de fidelidade aumentou muito em decorrência de um amadurecimento da cultura associativista. O fator determinante, contudo, foi o elevado grau de sucesso das cooperativas, que profissionalizaram a gestão e passaram a ter maior sucesso mercadológico”, afirma Canton. Sendo parte essencial da estrutura que move o cooperativismo, ouvir e atender as demandas dos cooperados tornou-se um dos caminhos principais que as cooperativas passaram a dar atenção. Afinal, ao ter cooperados mais felizes, os resultados para a cooperativa também serão mais positivos.

Canton afirma, que nesse cenário, integrar o cooperado à cooperativa é chave para tudo. “É vital envolver e comprometer o cooperado nos negócios da cooperativa, pois é para ele que a cooperativa existe. Estou convicto de que onde houver intensa educação cooperativista e sucesso empresarial/mercadológico o cooperado não terá motivo nem estímulo para uma conduta infiel”, conclui.

Além de programas exclusivos de cooperativas, hoje diversas plataformas são pensadas para melhorar a relação entre cooperativas e seus cooperados. Uma dessas ferramentas foi criada pela Seedz, uma startup criada com o objetivo de estabelecer um espaço onde as cooperativas agro possam se beneficiar da fidelidade em relação aos seus cooperados. Matheus Ganem, co-fundador e CEO da Seedz, explica o porquê de ser tão importante reconhecer o trabalho realizado pelos milhares de colaboradores das cooperativas ao redor do país.

Matheus Ganem, co-fundador e CEO da Seedz

“O cooperado é o motor responsável pelo sucesso da cooperativa. Se o cooperado vai bem e está alinhado com o propósito da cooperativa, a cooperativa irá bem. Por isso ele deve ser colocado no centro da experiência”, afirma. Para ele, a eficiência desse processo se dá à medida que a própria cooperativa se dedica a criar ambientes favoráveis para a relação com seus cooperados. “A fidelização é uma consequência da experiência excepcional entre clientes e organizações. Se uma empresa entrega bons serviços, ofertas adequadas e alto índice de satisfação o seu cliente devolve isso com fidelização”, conclui.

Criado como um desses ambientes, a Seedz é uma plataforma onde produtores rurais podem receber benefícios exclusivos de empresas parceiras do programa. Nela, o produtor consegue acumular moedas Seedz, que podem ser trocadas por serviços, produtos e outros ferramentas voltadas para o agro. Com a pandemia, ambientes virtuais passaram a ganhar destaque entre produtores, e apesar das incertezas, tais tecnologias tem impacto positivamente essa relação entre cooperativas e cooperados.

“A pandemia afetou de forma positiva, ao migrar para um ambiente digital, as cooperativas e produtores tiveram que recorrer mais ainda a ferramentas digitais de relacionamento, e a consequência foi um aumento da ferramenta de fidelização”, conta Ganem.

O futuro do agro

Com o período de transformação que vivemos, passamos muito tempo pensando no que virá a seguir…quais os próximos passos. Se analisarmos bem o que temos até agora, é possível afirmar que o cooperativismo agro continuará a se beneficiar do relacionamento pessoal, tratando cada cooperado como o indivíduo que ele é. Em um momento onde as tecnologias trazem o medo de uma era sem ligações humanas, vemos ferramentas e formas de cooperar totalmente novas, que apenas aumentam essa humanização desses processos.

“Podemos esperar um agro mais forte, um cooperado cada vez mais intenso em conhecimento e uso de tecnologia, atendo a mudanças e novas ferramentas que melhoram seu dia a dia. As cooperativas devem apostar no processo de digitalização e profundo relacionamento baseado em dados com os seus cooperados”, conclui Ganem.

Com a retomada gradual das atividades, podemos ver no horizonte perspectivas positivas, com um cooperativismo mais humano. Um mundo onde cooperativas investirão mais no relacionamento com seus cooperados, com a sociedade e o mundo como um todo. Nesse cenário, podemos esperar um agro cada vez mais humanizado, onde os produtores serão o rosto do movimento. Assim como em outros ramos, repito, o futuro do agro é humano.


Por Leonardo César – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 100



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