Revolução Agrícola: a indicação do Nobel para o Brasil

Publicado em: 07 julho - 2021

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Na década de 70, o Brasil foi palco para a maior revolução agrícola tropical sustentável da história. Guiada pelo então Ministro da Agricultura (1974-1979), Alysson Paolinelli, esse projeto teve como aposta principal o Cerrado brasileiro, um bioma degradado que foi reestruturado em uma das maiores cadeias produtivas e competitivas do país.

Além de promover a transformação do Cerrado, Paolinelli – hoje presidente executivo da Abramilho – esteve à frente da modernização da Embrapa e implantou o ousado programa de bolsas de estudos para estudantes brasileiros nos maiores centros de pesquisa internacionais.

Grandes marcos e fases da agricultura fizeram com que o Brasil se tornasse um dos mais importantes atores para a segurança alimentar global e, agora, o ex-ministro da Agricultura foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz 2021.

Em entrevista exclusiva à MundoCoop, Paolinelli destacou a importância de ter um brasileiro representando a área da alimentação no Nobel – setor que não é abordado desde 1950 na premiação -, como enxerga a “Revolução Verde” atualmente e o potencial do Brasil para conquistar ainda mais o mercado mundial.

Confira!

MundoCoop: Recentemente, você foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz e fez com que o mundo voltasse os olhos novamente para o agro no Brasil. Como você enxerga essa conquista? Qual a importância de ter um brasileiro representando a área da alimentação?

Fiquei muito honrado de ter sido indicado ao Prêmio Nobel da Paz. Foi uma iniciativa de companheiros que, juntos, trabalhamos há mais de 50 anos e todos tem uma ligação e dedicação muito forte com o agro brasileiro. Sou muito grato por ter sido escolhido para ser representante de um setor tão importante para o desenvolvimento do país.

Acredito que o prêmio tem uma amplitude muito grande no cenário agro e para o Brasil, que teve muitas pessoas colaborando para que pudéssemos criar essa agricultura tropical sustentável. E o que isso significa para o Brasil? Que nosso potencial de crescimento pode ser ainda maior e temos a obrigação de não perder esse movimento.

Não é fácil de vencer esse prêmio e ainda não estamos em condição ideal de reivindica-lo, mas já que fomos indicados tentaremos utilizar esse instrumento para melhorar. Se ganharmos, vamos ter a obrigação de montar uma reverência à essa premiação. Se não ganharmos, de qualquer forma sinto que vamos conseguir efetivar algumas ações que estamos iniciando, principalmente agora nesse momento tão difícil.

Acho que essa candidatura foi muito importante para o Brasil e, repito, nos obriga a responder a altura e nós estamos no caminho certo para isso.

MundoCoop: A indicação, com certeza, vai muito além de um projeto específico. Sendo considerado o “Pai da agricultura moderna brasileira”, quais conquistas na sua opinião te fizeram chegar até o Nobel? 

Olha, não posso dizer que sou pai da agricultura, eu faço parte de um grupo, de um movimento que se formou ao longo dos anos. Fui chamado para ser Ministro da Agricultura através do trabalho que comecei a fazer em Minas Gerais e tive possibilidade de mudar muitas coisas.

O país estava em crise e todos sabíamos disso na época, importar alimentos era difícil – nós não importávamos 1/3 do que consumíamos -, em 1968 teve uma tremenda unificação do mercado internacional de alimentos, o que aproximava um déficit. Depois, veio o problema do petróleo. Não conseguíamos ver nenhuma solução.

A saída que se teve foi acreditar no setor agrícola, mas para isso precisávamos ter um projeto estratégico que foi possível através dos resultados da estruturação da Embrapa, da Embrater, do plano de política pública para o Cerrado e ainda do apoio que tivemos da classe produtora. Todos aqueles que tinham discernimento aproveitaram as inovações das pesquisas, passaram a usa-las.

O Cerrado em um período de 5 anos estava demonstrando que era realmente uma área recuperada – e era uma das mais degradas anteriormente. Nós reestruturamos esse bioma e ele passou a ser uma cadeia produtiva e competitiva. Ou seja, o grande problema inicial foi resolvido pelo setor agro!

O Brasil passou a ser um país mais forte, produtor e competitivo e ocupou espaço no mercado. Hoje, como estamos vendo, ele passará inclusive a ter o suporte principal, o que nós chamamos de garantia da sustentabilidade em alimentos.

MundoCoop: Em meados de 1970, você iniciou um processo de mudança no sistema de agricultura do Brasil, principalmente, na modernização da Embrapa. Como foi estabelecer o conceito de sustentabilidade em um ramo no qual o assunto era pouco discutido? Como você interpreta a “Revolução Verde” nos dias de hoje? 

Em algumas formas esse tema já era discutido porque o setor de produção não podia continuar naquela letargia que estava, isso não funcionava. O sistema de pesquisa acabou com toda a burocracia da época, um pesquisador não era um pesquisador, era um burocrata. O que se decidiu fazer foi exatamente colocar o pesquisador em condições de trabalhar. Nós demos a ele mais responsabilidades e melhores condições, assim ele passou a ter a obrigação de dar respostas à essa confiança que foi dada.

Com certeza, a revolução verde pode progredir muito mais, nós estamos numa fase de adaptação. O Brasil não andava para frente porque não havia conhecimento, mas não era só o Brasil não, em nenhum lugar do mundo havia uma pesquisa com resultados concisos de produção nas zonas tropicais.

Quando o Brasil começou a desenvolver um programa de agricultura tropical sustentável, muitas mudanças aconteceram. Inclusive, a esperança de que seria possível transformar o ambiente tropical em uma cultura competitiva, e isso foi muito importante para o mundo.

Ainda hoje, as regiões pobres são as tropicais e elas tem muita semelhança ao Cerrado brasileiro. Nós temos 200 milhões de quilômetro de Cerrado, a África tem 400 e ninguém explorou o ambiente ainda pois não há conhecimento, a Ásia tem 100 e também não é explorada.

O importante é que houve necessidade de se criar inovações, conhecimentos, mudanças que permitissem que aquele produtor que não sabia produzir, aprendesse e colocasse em prática em um sistema absolutamente incapaz de ser produtivo.

Quando vieram as monetizações e o produtor tinha melhores condições de educação para analisar o que ele tinha, o Brasil começou a mudar e mudou muito rápido, porque houve desenvolvimento no processo científico e agora esse processo está evoluindo ainda mais.

Nós nos adaptamos nesses 50 anos. Claro que ainda somos dependentes de muitos produtos químicos na defesa de doenças, de pragas, mas acredito que com mais inovações, estudo cientifico e acesso, nós vamos conseguir aproveitar o que temos de bom, com projetos bem integrados e objetivos definidos.

MundoCoop: Ainda falando da Embrapa, muitos jovens brasileiros participaram do ousado programa de bolsas nos maiores centros de pesquisa em agricultura do mundo. Qual é a importância de inserir cada vez mais jovens no setor? 

Em 1964, não tínhamos pesquisadores suficientes. Nós abrimos concursos para mil profissionais na Embrapa e só apareceram 52 com pós-graduação. A saída foi colocar esse pessoal para treinar, mandamos para fora do país – onde a ciência era mais evoluída – e eles adquiriram o conhecimento da maior evolução da ciência, da tecnologia, e isso ajudou muito na inovação do Cerrado brasileiro.

Os jovens de hoje em dia têm muito mais oportunidades do que nós já tivemos, eles estão mais bem informados, tem o direcionamento para as escolhas, geralmente capturam mais o conhecimento, criam startups. Olha só quantas startups temos no setor agrícola!

Além disso, eles têm oportunidades de discernir o que e como fazer e, fazendo, repetindo, eles vão adquirindo uma capacidade muito maior e até mesmo sabedoria. O Brasil precisa dessa sabedoria!

Então, eu acredito mais nessa juventude porque ela está mais preparada. A nova geração tem muitos impulsos tecnológicos, principalmente, na área de comunicação que é muito importante na época em que estamos.

Se eu tenho hoje quase 85 anos e estou trabalhando sem parar, é porque sou estimulado a caminhar junto à essa juventude e na hora que eu der meu último passo, vou poder entregar meu bastão, que trabalhei 60/70 anos para conquistar, para um jovem que é bem mais competente do que eu. E esse é meu maior alívio. Essa é a verdade, esses jovens são bem mais competentes do que nós!

MundoCoop: O desenvolvimento do modelo agrícola tropical sustentável no Cerrado revolucionou o setor e o bioma. Você acredita que essa conquista foi um passo para o Brasil se tornar uma das maiores potências agrícolas e exportadora de alimentos do mundo? 

Sim, em razão disso, um grupo de antigos companheiros criaram o Fórum do Futuro que visa exatamente fazer o trabalho prévio dos 6 biomas brasileiros.

Nesses 6 biomas, nós pretendemos, em primeiro lugar, que seja bem clara e definida qual é a limitação de uso. Por exemplo, em uma área que pode ser usada, qual é a tecnologia já existente que nós podemos utilizar para que não degrade essa parte do bioma? Esse é o trabalho que estamos fazendo.

Esperamos que com essa nossa mobilização, da Embrapa, das nossas universidades e da iniciativa privada, que o governo veja a importância disso e dê prioridade a esse ponto.

Isso é uma questão muito séria porque vamos conseguir abrir novas oportunidades para o Brasil, da mesma forma que fizemos com o Cerrado e com o uso dos biomas.

MundoCoop: A estimativa atual é de que o Brasil é responsável por alimentar 10% de toda a população mundial, e o agronegócio teve uma expansão recorde de 26,6% no PIB total do país. Qual é a expectativa para o futuro do agro brasileiro? Você acredita que o país pode conquistar ainda mais espaço no mercado mundial? 

Não tenho dúvidas disso! A agricultura vai crescer e vai fazer o atendimento da nova demanda mundial. E quem está falando isso não sou só eu, é a ONU, a FAO, é o Banco Mundial e as instituições internacionais que analisaram o quadro atual para ver como a população de 2050 – onde se espera que vá haver um equilíbrio entre mortes e nascimentos – vai atender a essa demanda, porque ela vai ter mais de 2 trilhões de habitantes com um poder aquisitivo muito maior.

Os países populosos, que crescem mais em população, estão tendo uma renda muito maior que a nossa. China, Índia, Indonésia e todos esses países terão mais dinheiro para comprar, então a procura será maior. Esses 7,5 bilhões de consumidores de hoje estariam em torno de 9,7 a 10 milhões e vão consumir de 60 a 70% a mais do que hoje é ofertado.

Os países tradicionais, em contrapartida, não têm condições de fazer isso. Já esgotaram seus insumos, área arável ou até mesmo água. Então, quem vai tomar a frente dessa situação é o Brasil e nós temos já a tecnologia pronta para fazer isso.

Vou citar duas tecnologias que resolvem esse problema para o mundo. Uma é a irrigação! No Brasil nós temos cerca de 2 milhões de hectares irrigados e todos os produtores estão produzindo 3 safras por ano. Se nós aumentarmos de 7 a 8 milhões que temos hoje para 35 ou 40, vamos quase atingir a necessidade mundial, porque vamos multiplicar por três do que é produzido em uma safra.

O segundo ponto, a outra tecnologia, é o ILPF (Integração, Lavoura, Pecuária e Floresta) que se trata de uma estratégia de produção com a utilização de diferentes sistemas em uma mesma área. É uma produção que nós vamos fazer com carbono neutro. Nós vamos recuperar as pastagens degradadas, vamos produzir mais grãos, vamos produzir mais carnes e mais leite e ainda evitar a saída do carbono dessa equação. Isso é uma novidade que vai encaixar perfeitamente nas necessidades do mundo de hoje.


Por Jady Mathias Peroni – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 100



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