Sucessão na Santa Clara: a grande história por trás da cooperativa

Publicado em: 12 maio - 2021

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Rogerio Bruno Sauthier entrega cargo a Gelsi Belmiro Thums
Foto: Virginia Silveira

Com legado e tradição, o cooperativismo agrega cooperativas tão centenárias quanto sua origem. Como é o caso da Santa Clara, do Rio Grande do Sul. A mais antiga cooperativa de laticínios em atividade no Brasil completa 109 anos em 2021 e representa mais de 5 mil associados, em 135 municípios gaúcho, atuando em diversos ramos agropecuários e de varejo.

Esses números grandiosos, porém, trazem consigo marcas muito mais importantes. As histórias de quem fez, e continua fazendo, a cooperativa ocupar um espaço essencial na vida das pessoas da comunidade.  

Ilustrando perfeitamente esse feito, recentemente, a Santa Clara anunciou a sucessão de sua presidência a um associado que desde sua adolescência integra a cooperativa, acompanhando todas as mudanças e conquistas da mesma.

Desde 1º de fevereiro de 2021, Gelsi Belmiro Thums é o novo presidente. A transição anunciada pelo antecessor Rogerio Bruno Sauthier, que ocupou o cargo por 27 anos, foi harmoniosa e já esperada há anos.

Por trás da história

Gelsi Thums nasceu em uma família do cooperativismo. Virou associado na Cooperativa Santa Clara muito jovem por influencia de seu avô que também era associado e, na época, tinha uma pequena queijaria. 

Cresceu ouvindo as histórias que antecederam o movimento cooperativista na região onde produtores por si só se reuniam e montavam pequenos negócios, buscando dar destino aos produtos. “Meu avô e minha avó tinham uma queijaria tocada pela família, coletavam leite na vizinhança, faziam queijo, colocavam em uma carroça e transportavam até a estação do trem para dar destino a mercadoria. Com o tempo, os filhos foram crescendo e se mudando, fazendo com que ficassem só meus avós e eles perdessem força. Foi quando se associaram à cooperativa Santa Clara”.

A escolha de se tornarem associados também contextualiza a história do cooperativismo no sul do país. Mais precisamente em Carlos Barbosa. A Cooperativa de Laticínios União Colonial Ltda. e a Cooperativa Agrícola Carlos Barbosa buscavam alternativas para superar dificuldades da época e, por já possuírem diversos sócios em comuns, se uniram, formando uma nova entidade. Surgia assim, em 1975, a Cooperativa Agropecuária Carlos Barbosa Santa Clara Ltda.

“Isso diz muito da minha criação. Foi na década de 70 que meus pais decidiram assumir a propriedade dos meus avós e decidiram colocar as terras em meu nome”. Gelsi, hoje com 59, assumiu a propriedade aos 13 e aos 14 se tornou também associado, no ano de 1976. “A partir disso fomos sempre acompanhando a cooperativa, fizemos parte de cursos, se envolvendo e gostando cada vez mais. Meu avô sempre foi um grande incentivador do cooperativismo”.

Desse momento até o atual, o caminho foi trilhado. “Entrei para o Conselho de Administração. Em 1998, consegui fazer parte do núcleo. Em 2000, fui conselheiro, onde fiquei por 9 anos, e, em 2009, fui promovido a vice-presidente. Até 31 de janeiro desse ano. E, a partir de primeiro de fevereiro, assumi a presidência em uma transição muito planejada, muito bem organizada, pelo senhor Rogério, nosso histórico presidente”

O futuro do movimento centenário

Além de uma trajetória rica que se confunde com a história do próprio cooperativismo, Gelsi Belmiro trouxe um pouco da sua percepção sobre o movimento e os desafios atuais a partir de sua magnifica experiência.

Confira a conversa exclusiva com a MundoCoop!

O que significou assumir a presidência da Santa Clara?

Sempre vivemos a história Santa Clara, começamos muito jovens e a vimos com bons olhos. Existiram adversidades e tempos difíceis, mas desde que o senhor Rogério assumiu, em 1994, ela tomou um rumo mais correto e mais cooperativo. Agora tem planejamento, uma linha de crescimento, tem metas, resultados e tem um grupo de colaboradores muito compromissado.

É um trabalho que eu diria que, hoje, não visa só ter resultados e crescimento cooperativo, mas também precisa se manter, ter uma estrutura e dar ao produtor associado a segurança do dia a dia.

Presidente Gelsi Thums / Foto: Assessoria Santa Clara

O senhor sempre foi um incentivador de ações em prol dos associados. Qual a importância dessas questões?

Muitas coisas são difíceis. Problemas governamentais não são simples. Temos que buscar criatividade e ter inteligência. Nós sempre buscamos a criação de alternativas para driblar problemas e trazer soluções e isso, muitas vezes, traz a possiblidade de ganhar mais com menos, economizar despesas para ter resultados.

Eu sou uma pessoa que vim de uma vida muito humilde, muito simples. Tive muitas dificuldades e ali construí uma história, jamais pensando em levar vantagem sobre outra pessoa. E vejo que esse é o caminho. Não basta querer chegar da noite para o dia, do fundo do poço para o topo, a coisa tem que ser gradativa, ter pé no chão e construir uma história sólida.

O produtor de leite tem todo e qualquer tipo de visão e é na cooperativa que existe esse equilíbrio onde todos são iguais. O que é bom para o pequeno tem que ser bom para o médio e o grande também.

Como superar os principais desafios atualmente?   

Existem muitas adversidades e, hoje, elas são praticamente invisíveis e quase que incalculáveis. Mas como enfrentamos? Com tranquilidade, sabedoria, com uma confiança muito grande na história da Santa Clara, confiança no conselho, nos diretores, no planejamento, na linha de crescimento. Nada hoje se faz por fazer. Se faz com trabalho, com estudo e muitas pesquisas.

“Estamos em uma situação que acredito que é o grupo que vai fazer a diferença. Não é o presidente que faz a diferença, é o grupo”

Como enxerga o cooperativismo?

No mundo, o cooperativismo não é muito bem visto por aqueles que querem apenas o ganho de capital. Mas o cooperativismo não é um ganho de capital, ele compartilha o capital, ele pega o produto, ele industrializa, ele procura dar o melhor destino e ele compartilha o resultado.

O capitalismo só quer o resultado final, então, hoje, o cooperativismo é uma das melhores saídas. As cooperativas são formadas em muitos tipos de atividades. O cooperativismo nasceu há centenas de anos e a cada dia que passa você vê que ainda é a melhor alternativa daquele pequeno e médio. O grande quase sempre se torna um empresário individual, mas o médio e o pequeno não têm como ter a força e potencia e em uma associação ao cooperativismo eles ganham um poder gigantesco, se equivalem.

O cooperativismo fez a diferença na sua vida?

O cooperativismo sempre vai ser a diferença. E em todos os setores.

Todas as cooperativas organizadas e bem administradas, vêm em uma crescente, vêm em uma alavanca e, agora, elas não têm mais medo de uma multinacional porque elas tem um suporte por trás. Acredito que o cooperativismo é o número 1 para o pequeno, grande, e médio também.

O que o senhor diria para quem está entrando para o cooperativismo agora?

O cooperativismo é uma história mais que centenária e positiva desde seu surgimento até o momento atual, com muitos exemplos para comprovar. Uma família só não tem como dar destino a um produto, agora se juntar duas, três, quatro e cinco, é criado um grupo e uma força com ideias e soluções.

Acredito que o mundo precisa apostar e confiar. O cooperativismo não tem como não ser um exemplo de inicio, meio e fim e, principalmente, futuro


Por Fernanda Ricardi – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 99



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