Transformação digital: como as moedas virtuais estão revolucionando a maneira de se fazer cooperativismo

Publicado em: 18 março - 2021

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O futuro é digital. E ele é agora. Se há vinte anos nos questionassem sobre o futuro das transações financeiras, dificilmente estaríamos falando sobre a possibilidade de um dia o papel-moeda ser aposentado. Entrando na segunda década do século XXI, o cenário econômico vê inovações surgirem a todo momento. Bancos digitais competem de igual para igual com instituições que existem há mais de dois séculos. E mais recentemente, o PIX revolucionou as transferências e pagamentos. E não para por aí. A próxima revolução já começou – há um longo tempo, se analisarmos mais a fundo – e a próxima estrela a ganhar os holofotes são as moedas digitais. Para o diretor de Novos Negócios da cooperativa Minasul, Luiz Henrique Albinati, este é um movimento natural do mercado, ainda mais em um mundo cada vez mais integrado. “[…] além da facilidade e agilidade nas transações, para elas (as moedas digitais), não existem fronteiras geográficas ou políticas”, afirma. 

O começo de tudo 

Quando surgiu pela primeira vez, o bitcoin foi visto com maus olhos. Ainda hoje, a criptomoeda que inaugurou esse movimento é um ativo com grande risco, e apenas os mais corajosos investem nesse setor, que se valoriza e perde metade de seu valor de mercado em um intervalo de horas. Desde então, outras moedas surgiram e hoje não se fala apenas em criptomoedas, mas também em moedas virtuais e digitais. Para alguns, elas são exatamente a mesma coisa. Mas na prática, não é bem assim. 

“Moedas virtuais ou moedas digitais, são aquelas intangíveis, ou seja, que não possuem uma forma física e existem apenas no formato digital”, conta Albinati. Quando falamos em moedas digitais, estamos nos referindo às movimentações que realizados no dia-a-dia. São operações em cartão de crédito, débito, TED, DOC, PIX e contas de pagamento. Essas moedas são a evolução do dinheiro “vivo”, que deixa de ocupar espaços físicos, para existir apenas no mundo digital. Para isso, as instituições tem o aval do Banco Central, que aqui atuam como o órgão máximo responsável por supervisionar e garantir a legalidade dessas operações. 

Já as criptomoedas não possuem um órgão governamental para regularizá-las. Aqui, as transações existem numa rede criptografada que garante a segurança dos ativos em negociação. Entre os seus atrativos, estão a privacidade, a segurança e a descentralização. Como não possui uma instituição supervisora, as moedas existem através de um código, denominado blockchain, e suas regras são definidas pela própria comunidade que as utiliza. Os dados, deixam de existir em um único lugar, e passam a ser distribuídos pelos computadores de seus usuários, elevando o nível de segurança de todo a rede. 

Mesmo existindo de formas diferentes, as moedas digitais e as criptomoedas são a evolução natural do dinheiro que conhecemos. À medida que os governos embarcam nesta onda – Brasil e EUA pretendem lançar moedas atreladas ao Real e ao Dólar futuramente – a existência de um mundo sem moeda física é cada vez mais provável. Com toda essa mudança, o processo de busca por inovações é orgânico, e no Brasil as cooperativas já entraram neste novo jogo. Hoje, elas e seus cooperados já realizam entre si transações totalmente baseadas em moedas digitais, e a mudança veio para ficar. 

O café moeda 

Saindo na frente na corrida para criar sua própria moeda digital, a cooperativa Minasul lançou em 2020 a Coffee Coin, primeira moeda do tipo a ser lastreada à um produto real. A moeda, que atualmente está disponível apenas internamente, tem seu valor atrelado ao preço da saca de café. Segundo Albinati, a criação do ativo financeiro surgiu como uma nova opção de pagamento para os cooperados. Assim, o café depositado pelos associados da cooperativa é convertido em uma unidade monetária, possibilitando que o cooperado realize compras dentro da própria cooperativa, podendo adquirir itens simples como chapéus, assim como aqueles que ajudarão no avanço da produção, como tratores, fertilizantes e outros produtos. Ao ser atrelado ao valor do café em tempo real, o comprador tem um maior controle sobre as finanças de sua produção. 

Luiz Henrique Albinati, Diretor de Novos Negócios da Minasul

Com a pandemia, novas peças foram colocadas no tabuleiro, e mais do que nunca as cooperativas mostraram sua importância, principalmente na manutenção dos negócios administrados por pequenos produtores. Com a criação de uma moeda diretamente voltada para esses indivíduos, o setor cooperativista se direciona para um futuro onde as cooperativas e seus cooperados poderão trabalhar em conjunto dentro de seus próprios ecossistemas financeiros. 

O próximo passo da cooperativa é expandir o alcance da moeda. E isso ocorrerá com a transformação da coffee coin em uma criptomoeda.  Para Albinati, o principal motivo para a mudança é “desenvolver e disponibilizar novas opções de transações financeiras e oportunidades de investimentos para seus cooperados e para o mercado em geral”. E com a confiança do cooperado, a Minasul espera que o número de transações com a moeda aumente progressivamente, aumentando também o seu valor de mercado. 

Com a velocidade dos avanços tecnológicos ao redor do globo, Albinati afirma que é cedo para prever o impacto dessas moedas no mercado cooperativista. Para ele, este novo ecossistema possibilitará a integração de vários segmentos da produção e negócios ligados às cooperativas, gerando então “carteiras digitais integradas com alto valor agregado para seus associados e atraindo grandes investidores para seus negócios”. Um dos sinais desse cenário previsto por Albinati já existe hoje, e a Moeda é outra iniciativa que há quatro anos vem revolucionando a forma como projetos receberem apoio financeiro. 

A rede de impacto social 

Uma das maiores barreiras para os pequenos negócios é a dificuldade de acesso ao crédito. Uma evidência desse fato é o número de estabelecimentos que dependeram da ajuda governamental para continuarem de portas abertas durante a pandemia. Mesmo assim, muitos locais não conseguiram acesso ao Programa de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), criado pelo governo para auxiliar negócios que estavam passando por dificuldades. Além disso, alguns fatores tornam o acesso ao crédito ainda mais distante, sendo um deles o gênero do requisitante. De olho nesse cenário, em 2017 foi criada a Moeda, uma fintech financeira que utiliza a blockchain para conectar apoiadores e projetos de alto impacto social. Com ela surgiu a primeira criptomoeda brasileira registrada na Binance, a Moeda Seeds – ou Moeda Semente. 

Fundada por Taynaah Reis, a fintech tem o objetivo de aumentar o acesso de pequenos produtores às linhas de crédito, sem a burocracia dos meios tradicionais. Além disso, ela também promove a igualdade de gênero e leva recursos para que projetos de pessoas não-bancarizadas consigam o financiamento necessário para saírem do papel.  

Taynaah Reis, Fundados da Moeda Seeds

Hoje, a Moeda é um completo ecossistema que possibilita o financiamento de projetos e negócios, como os de cooperativas. Após enviarem suas propostas para o Programa Moeda, aqueles que são selecionados recebem um plano de negócios e desenvolvimento, assim como uma proposta de financiamento personalizada, criando mais oportunidades para que o crédito chegue de fato ao produtor. Depois de aprovados e inseridos na plataforma, os projetos podem receber apoios de qualquer um que esteja buscando uma iniciativa de impacto social para apoiar. Tudo isso, possibilitado pela segurança da criptomoeda e da blockchain (cadeia de dados que reúne as moedas). 

“A Moeda começou como um simples fundo de crédito e hoje se transformou em um ecossistema que a gente mal esperava, sendo utilizado como meio de pagamento e e-commerce”, conta Taynaah em entrevista à Be(in)crypto. Hoje os usuários podem realizar compras, anunciar e vender produtos, viabilizar projetos e ainda receber apoio técnico aos seus empreendimentos. Dessa forma, com uma extensa curadoria, a Moeda dá oportunidade para projetos que por vias tradicionais, não conseguiriam o apoio necessário. 

Abraçando um mundo completamente digital, a fintech chega ao próximo nível do sistema cooperativista, e mostra como esse setor pode ser revolucionário, alcançando um número ainda maior de pessoas. 

O que vem a seguir 

Um ano depois, ainda vivemos um momento de incerteza. Mas aos poucos, o dia de amanhã parece carregar sinal de que tempos melhores se aproximam. Se nos últimos anos a transição para o meio digital se tornou algo irrefreável, a pandemia veio para nos mostrar que migrar para um meio de maior alcance é o futuro. E as cooperativas estão prontas para seguir este caminho. Exemplos como os que foram mostrados aqui hoje são apenas a ponta do iceberg do que o trabalho em conjunto entre cooperativas e cooperados pode trazer para o setor em um futuro próximo. Podemos assim afirmar que em breve o cooperativismo poderá ter uma rede única, integrada com todos os seus setores, e voltada para seus próprios interesses. Desta forma, o mundo das transações virtuais deixará de ser apenas uma evolução natural do que conhecemos hoje, para se tornar uma verdadeira revolução da forma como fazemos o cooperativismo. O futuro promete uma aproximação maior entre aqueles que são impactados diretamente pelas inovações criadas pelo cooperativismo brasileiro, e se a união de pessoas é a nossa chave, migrar para um ambiente digital onde todos poderão dar suas colaborações, poderá representar uma junção do setor de uma forma nunca antes vista. 


Por Leonardo César – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 98



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