Transformação digital: o que ela significa para as cooperativas?

Publicado em: 29 outubro - 2021

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Falar sobre transformação digital, em pleno século XXI, tornou-se um assunto recorrente. Intrinsecamente ligado ao modo como vivemos hoje, as mudanças que são abraçadas por esse conceito vieram para ficar e dificilmente serão deixadas de lado tão cedo.

Muito diferente do que vemos de tempos em tempos, as transformações do mundo atual muitas vezes são sutis, mas poderosas. Uma ferramenta nova. Um aplicativo ou serviço novo. Um modelo de negócio inédito. Pouco a pouco, essas pequenas inovações vão se remodelando para elas mesmas, criar um mundo novo à sua volta.

O olhar dos negócios está – nos dias de hoje – mais direcionado ao futuro do que nunca. Não voltado para uma utopia digna de um grande clássico de ficção-científica, mas sim concentradas em soluções possíveis e alcançáveis. Estamos, como sociedade, ávidos pela mudança. Ela está aqui. E somos nós que a fazemos.

Diante de mundos interdimensionais e inteligências artificiais, fazemos a pergunta: onde as cooperativas se encaixam neste contexto? Com um histórico focado em pessoas, migrar para um mundo cada vez mais existente na “nuvem” pode ser um desafio grande. Como então cumpri-lo, sem deixar para trás os princípios e valores que tornaram o cooperativismo a força mundial que ele é hoje?

Para desvendar como a transformação digital está reorganizando o movimento cooperativista, a MundoCoop convidou grandes cooperativas do país, para falarem como estes conceitos se aplicam e modificam seus respectivos ramos.

“As novas tecnologias permeiam nosso dia a dia e desde sua origem a agricultura passou por muitas transformações tecnológicas” – Osvaldo Bachião Filho – Vice-Presidente Cooxupé

Na última década, o ramo agro tem buscado novas ferramentas e processos para alavancar a sua produção. Com a demanda alimentar cada vez maior no mundo todo, e os desafios de um clima cada vez mais incerto, produzir alimento suficiente para todos tem sido um grande desafio.

Neste cenário, profissionais de vários campos tem trabalhado para colocar em prática novas formas de cultivar. A partir disso, temos observado uma safra que cresce a cada ano, em volume e qualidade. Além de grandes propriedades, hoje pequenas áreas de plantio, como as de agricultores familiares, tem trabalhado para acompanhar as novidades do mercado, sempre com a ajuda trazida pelos financiamentos rurais que governo e cooperativas de crédito têm disponibilizado para o setor.

Somado a isso, a preocupação ambiental tem sido um fator primordial nestes novos tempos, e novas técnicas tem garantido que o meio ambiente continue intacto mesmo diante da grande missão que é a produção alimentícia mundial.

Osvaldo Bachião Filho – Vice-Presidente Cooxupé

As novas tecnologias permeiam nosso dia a dia e desde sua origem a agricultura passou por muitas transformações tecnológicas. A evolução é constante, muito rápida e acontece simultaneamente em todas as áreas. E o movimento cooperativista é extremamente importante nesta transferência da transformação digital.

Hoje os cooperados têm o monitoramento do clima, da frota das máquinas, da secagem do café, da gestão da propriedade, tudo isso na palma da sua mão. E o papel do cooperativismo é tornar essa transformação digital acessível não só aos grandes produtores, mas também aos médios e pequenos produtores. Isso acontece muito por meio do Desenvolvimento Técnico efetuado pelos agrônomos, nas feiras -que atualmente muitas delas são feitas de forma online- por meio dos aplicativos que hoje são ferramentas que permitem aos cooperados fazer compras, negociar café, consultar estoque, informações financeiras sem precisar sair de sua propriedade.

Além de facilitar e melhorar a experiência do cooperado, a transformação digital aprimora e simplifica a relação com clientes e fornecedores. Indubitavelmente, a inovação tecnológica é decisiva para o sucesso das cooperativas nos dias atuais, uma vez que reflete no aumento da produtividade, na redução dos custos e na melhoria da comunicação.

A transformação digital é uma extraordinária oportunidade para o seguimento cooperativista” – Adriano Michelon – Vice-Presidente da Cresol Confederação

Sendo um dos ramos que mais se transforma diante das novidades do mercado, o cenário de crédito tem presenciado grandes mudanças nos últimos tempos. Diante de novas regulamentações, ferramentas e facilidades para o consumidor, as cooperativas de crédito tem presenciado um grande salto em inovação no oferecimento de produtos financeiros.

A grande prova deste cenário vem com os números do setor, que mesmo diante da pandemia conseguiu continuar a oferecer produtos financeiros, de forma personalizada e focada em atender as demandas do cooperado. Em um dos momentos onde as comunidades presenciaram uma grande fragilidade, o ramo crédito continuou a dar apoio ao desenvolvimento, através de melhores condições para cooperados, empreendedores e outros.

Agora, um novo momento começa para o setor. Com a chegada do PIX e do Open Banking, e novos players “esquentando” um mercado cada vez mais competitivo, as cooperativas de crédito tem se esforçado para analisar e entender o seu público, utilizando dados e outras métricas para identificar quais os próximos passos a serem dados pelo movimento. No futuro próximo, a perspectiva é que essas cooperativas sigam entregando soluções cada vez mais “feitas sob medida” e focadas na união entre o melhor do mundo digital e o melhor do atendimento humanizado que elas já possuem como tradição.

Adriano Michelon – Vice-Presidente da Cresol Confederação

A transformação digital é uma extraordinária oportunidade para o seguimento cooperativista. Ela possibilita que tenhamos mais tempo para atender o quadro social, no que ele realmente precisa.

Precisamos ficar atentos, acompanhar e estar juntos a transformação digital, mas sem torná-la o centro de todas as coisas. Ela é importante e fundamental, porém o mais importante é que o cooperado tenha condições de utilizá-la. Por exemplo, com o PIX. O PIX surgiu como uma ferramenta fantástica, mas do que adianta sua existência se o cooperado não possuir recursos em sua conta?

Nossa atuação deve ser focada no desenvolvimento do cooperado e em como tornar estas novas ferramentas mais acessíveis e “leves” para ele. A partir disso, poderemos atender as demandas do cooperado como um todo.

A transformação digital é uma grande oportunidade para o cooperativismo, mas devemos evitar que ela se torne o objeto central das ações das estruturas cooperativistas existentes.

“A transformação só terá finalidade se o aspecto humano prevalecer dentro das organizações” – Richard de Oliveira – CEO da Unimed Grande Florianópolis

Há mais de 1 ano, quando os primeiros casos da Covid-19 foram identificados no Brasil, não tínhamos ideia de sua magnitude. Sendo uma das maiores crises sanitárias dos últimos 100 anos, esse período nos transformou profundamente como sociedade, como profissionais e como indivíduos.

Neste contexto, um dos ramos que mais precisou correr contra o tempo foi a saúde, a principal afetada pelo período pandêmico, mas também a principal salvadora de um cenário ainda mais obscuro. Rapidamente, cooperativas de saúde buscaram soluções e protocolos, e continuaram a exercer o seu trabalho de proteção à vida. Diante disso, novos atendimentos surgiram, a telemedicina se popularizou e o atendimento humanizado foi garantido, mesmo que diante de uma tela de computador.

Agora, o setor se prepara para uma nova fase. Com novas regras trazidas a partir da Covid-19, adentramos um futuro de uma saúde mais integrada, acessível e humanizada. E neste cenário, a transformação digital se coloca como o grande fator que vai levar a medicina para a sua próxima fase.

Richard de Oliveira – CEO da Unimed Grande Florianópolis

Transformação digital parte do princípio de democratizar e tornar mais acessível o acesso a informações e dados. Contribui também para a transparência e alavanca a inovação nas empresas. A transformação digital está em diferentes frentes e seu uso é amplo dentro de uma organização: desde a rotina dos processos a reuniões online potencializadas pela pandemia. Certamente, a transformação digital contribui para amadurecer a maneira com a qual conduzimos as atividades e evoluir as empresas para um caminho cada vez mais digital (e global).

Não há espaço para o analógico, de modo que o digital trouxe importantes mudanças para o movimento cooperativista, visto que cooperativas cinquentenárias (pouco mais ou pouco menos dessa idade) e consideradas convencionais precisaram avançar e reaver seus processos para se manterem competitivas no mercado, frente à concorrência. Uso de aplicativos, sistemas integrados, parcerias com startups ou empresas do ramo da tecnologia e inovação foram e continuam sendo alternativas mais ágeis para iniciar e permanecer com a transformação e adesão digital. Mas toda essa transformação só terá finalidade se o aspecto humano prevalecer dentro das organizações. Pessoas no centro de tudo. É um interessante exercício equilibrar tecnologia, processos e humanização e, acredite, é possível de ser feito e faz todo sentido.


Por Leonardo César – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 102



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