Um legado maravilhoso

Publicado em: 07 julho - 2021

Leia todas


Lições de sustentabilidade dão a receita para saída da crise global -  MundoCoop

No último dia 17 de junho a OCB realizou, em conjunto com a Aliança Cooperativa do Japão, o Encontro Brasil-Japão tendo em vista fortalecer o princípio da Intercooperação com as cooperativas daquele país amigo. E sempre é bom lembrar que o Brasil é o país com maior número de imigrantes e/ou descendentes de japoneses em todo o mundo.
Na data referida fez 113 anos da chegada ao Brasil do Kasato Maru, navio trazendo 165 famílias de imigrantes do país do Sol Nascente, e temos muito o que comemorar com a parceria que nascia na ocasião.

E não apenas na agricultura, embora esse segmento tenha sido muito beneficiado.

Nas artes, na ciência, na arquitetura, na medicina, na engenharia, na academia, no mundo virtual, para onde quer que olhemos, encontraremos a extraordinária contribuição dos japoneses e seus descendentes para a modernização do Brasil.

Mas seu legado no agro é imenso.

Começou com as sementes de culturas olerícolas que trouxeram e que sequer conhecíamos no Brasil, o que deu origem aos cinturões verdes das grandes cidades brasileiras. Sem isso, teríamos demorado muito mais tempo para chegarmos à fartura que hoje temos de verduras, legumes, frutas e também na produção de ovos, peixes e pequenos animais.

Teve sequência com o espírito associativista típico do povo oriental. Sob sua inspiração nasceram as grandes cooperativas de hortifrutigranjeiros como foram a Cooperativa Central de Cotia e a Sul Brasil. Foram elas que organizaram o sistema de produção tecnificado e os caminhos de distribuição, dando destaque ao CEAGESP como central de abastecimento. E até hoje as cooperativas singulares remanescentes cumprem um papel importantíssimo na inovação, produção e distribuição de produtos agrícolas, para muito além dos hortícolas. Aliás, além dos imigrantes que vieram a São Paulo para trabalhar inicialmente nas fazendas de café – e depois se espalharam pelo pais – vale lembrar a grande influência japonesa na cultura da pimenta, que teve expressão notável em Tome-Açú, no estado do Pará. 

Mas foi na conquista do cerrado, nos anos 70 do século passado, que os japoneses tiveram um grande destaque. Até naquela época, ninguém no Brasil queria saber de cerrado, considerado solo pobre e infértil. Com o conhecimento técnico desenvolvido pelas nossas instituições de pesquisa – começando nos anos 50 com trabalhos do Instituto Agronômico de Campinas e vigorosamente implementados pela Embrapa – o cerrado foi domado. E com um grande acordo firmado entre os governos do Brasil e do Japão surgiu o Prodecer – Programa de Desenvolvimento do Cerrado – com o objetivo estratégico para nós de ocupar produtivamente o vasto território do centro-oeste e para eles, de garantir a oferta de alimentos fartos e de qualidade. Foi criada a Campo, companhia bi-nacional de Colonização, que se ocupou do complexo trabalho de definir as áreas que seriam adquiridas com os recursos japoneses e de escolher os agropecuaristas que seriam nelas assentados. E mais uma vez o mecanismo de articulação para isso foi o cooperativismo. Cooperativas pré-existentes e exitosas se encarregaram de definir os associados que desbravariam o cerrado sob a supervisão da Campo.

O sucesso desse acordo transformou o cerrado no Maracanã onde será disputado a Copa do Mundo da Segurança Alimentar, que o Brasil vencerá de braços dados com o Japão.


Por Roberto Rodrigues, Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV – Artigo publicado na Revista MundoCoop, edição 100



Publicidade