Um lugar para reciclar vidas

Publicado em: 21 dezembro - 2020

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Sendo grandes aliadas da reciclagem, as cooperativas de catadores vem mudando a realidade de uma grande parcela da população no Brasil

Transformando o conceito de “lixo” em uma visão contínua de produção, os catadores de recicláveis movem a verdadeira economia circular no Brasil. E hoje, essa parcela da população que tem uma demanda histórica ligada a questão social, tem um novo desafio: o de preservar seu espaço dentro do setor econômico.

Garantindo a sobrevivência de milhões de pessoas, a economia circular tem a reciclagem como um importante instrumento. A ideia de que precisamos pensar no destino do resíduo antes de criar o produto e suas embalagens é um pensamento atual e que tem causado muito impacto com o mercado nacional e internacional.

Sendo a base da cadeia da reciclagem, os catadores são responsáveis pela coleta de praticamente 90% de todos os resíduos sólidos do país, o que corresponde a mais de 78,3 milhões de toneladas por ano. A profissão, além de gerar empregos, renda e inclusão social de uma parcela significativa da população, contribui para salvar o planeta, uma vez que a gestão eficiente dos resíduos sólidos é uma questão de sobrevivência para todos.

Diretor Executivo da Pragma Soluções Sustentáveis, Dione Manetti

Nesse caminho, reciclando muito mais que materiais, as cooperativas de catadores vem ganhando cada vez mais lugar na limpeza urbana. Porém, mesmo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) prevendo a priorização da participação das cooperativas em sua implementação, muitas ainda sofrem por essas diretrizes não serem seguidas. “Precisamos de uma grande aliança do setor cooperativo em prol da contratação das organizações de catadores pelas prefeituras. Seria uma grande contribuição do sistema cooperativista para avançarmos com um modelo sustentável e inclusivo para a gestão de resíduos no país”, afirmou o Diretor Executivo da Pragma Soluções Sustentáveis, Dione Manetti.

Esse novo cenário, tanto econômico quanto sanitário, exige uma maior abertura para novas articulações e as cooperativas tem buscado se qualificar para se tornarem mais eficientes e ampliar sua capacidade de resposta às demandas e oportunidades que a PNRS gera. Entretanto, outro grande desafio é a formalização da reciclagem, pois muitos catadores ainda atuam como autônomos nas ruas e lixões do país.

Com a falta de capacitação e profissionalização, a organização em cooperativas traz para esses trabalhadores melhores condições. Pois, de acordo com Dione, é quando se organizam dentro do modelo que muitas vezes conseguem uma estrutura adequada, equipamentos corretos para diminuir esforço físico e para a proteção da saúde, bem como ampliam a possibilidade de acesso a políticas públicas, especialmente na coleta seletiva. “Tudo isso é a representação material da importância que estas organizações têm para colaborar com a superação da pobreza e miséria, que infelizmente voltou a crescer em nosso país”, comentou.

Transformar para conquistar

Ao redor do mundo, nós temos muitos acordos e iniciativas que buscam atingir altos níveis de sustentabilidade – exemplo disso são os Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis estabelecidos pela ONU na Agenda 2030 – e movimentos como o cooperativismo tem um

a grande representatividade nesse processo. Porém, é preciso conciliar uma estratégia aplicada para relacionar a política nacional de resíduos com o sistema cooperativista. “As cooperativas de catadores precisam ter um modelo de negócio, sem fins de lucro, mas com fins econômicos e tem que ter o propósito do serviço de qualidade”, comentou o Diretor da Cooperativa Yougreen, Roger Koeppl.

De antemão, é necessário ampliar a cobertura da coleta seletiva no Brasil, que hoje só atende 38% dos brasileiros, e estimular as prefeituras para que implementem essa coleta por meio da contratação das cooperativas de catadores para a realização desses serviços. Entretanto, acima de tudo, é preciso que ocorra uma grande campanha de informação e mobilização da sociedade para a separação e o descarte de resíduos de forma adequada. “Nós temos o desafio de acelerar o conceito de sustentabilidade para a massa”, completou Roger.

Trazendo de volta ao ciclo tudo aquilo que parecia não servir mais, as cooperativas de catadores garantiram que mais de 1 milhão de toneladas de resíduos fossem destinadas à reciclagem, movimentando cerca de meio bilhão de reais com a comercialização desses materiais. Afinal, por mais que a maioria das pessoas não veja, o conteúdo que tem dentro daquele saco é um resíduo que tem valor econômico pra sociedade.

Sendo o pilar da reciclagem e mestres em se reinventarem para sobreviver na adversidade, os catadores são a base desse universo que é uma grande alavanca para combater a pobreza e o desemprego. E esse setor que é intensivo em mão de obra, pode colocar o país alinhado com as mais modernas visões que, em outros países, combinam crescimento econômico com inclusão social e desenvolvimento sustentável. “Qualificar a atuação dos catadores e fortalecer sua participação na cadeia da reciclagem é colaborar para o desenvolvimento sustentável do país”, finalizou Dione.

O Brasil, assim como o mundo, precisa de mais reciclagem e para que isso seja efetivo, a população precisa ampliar e colaborar com uma melhor coleta e valorizar os catadores para que tenhamos, assim, uma vida melhor hoje e um planeta habitável para o futuro.

“É as guria!”: a cooperativa de reciclagem que mudou vidas

Mostrando na prática como o cooperativismo e a reciclagem geram muitas oportunidades, a Cooperativa SDV Reciclando, que carrega em sua sigla o significado de “sabor da vitória”, é formada majoritariamente por mulheres de família que encontraram no movimento uma nova chance de vida.

Situada no pátio de uma residência da Vila dos Herdeiros, em Porto Alegre, a cooperativa foi fundada em 2018 pelas idealizadoras, e também irmãs, Stefani Guedes, 27, e Paula Guedes, 31, com o intuito de trazer coletividade e renda para as mulheres da região. “Hoje em dia, aqui na comunidade, nós somos um ponto de referência. Somos um grande exemplo de superação”, disse Paula.

A ideia da cooperativa surgiu após as irmãs romperem com o ciclo de violência doméstica no qual estavam inseridas e, longe dos ex-agressores, se viram na responsabilidade de batalhar para garantir o sustento dos quatro filhos que as acompanhavam. Passando pela venda de lanches até a abertura de um salão de beleza, foi na reciclagem que se descobriram e se aliaram a um propósito muito maior: criar uma economia solidária onde todas as mulheres seriam iguais, andariam de mãos dadas e fossem apoiadas.

Estampada com um grito de guerra que emana empoderamento e determinação, o lema “É as guria!” virou uma marca registrada da cooperativa, que apresenta para todos que essas mulheres catadoras devem ter um espaço na sociedade e em todos os lugares.

Garantindo renda com a coleta de recicláveis e um apoio mútuo, outro ponto muito representativo da cooperativa é a preocupação com a qualificação e capacitação das catadoras que, através do incentivo que encontraram, acabaram retomando os estudos. E, além do amparo, também é feita uma “vaquinha” entre o grupo para que todo ano ao menos uma delas tire a carta de habilitação.

Ainda sem um espaço adequado, o sonho dessas mulheres é conquistar um terreno onde possam aumentar a produção e ajudar mais pessoas. “Um dia nós queremos ter nosso galpão porque dentro dele não pretendemos fazer só reciclagem. A gente pretende ter uma sala para as crianças com acesso à internet e tem uma professora nossa que falou que no dia que tivermos nosso galpão, vai disponibilizar um computador para poder deixar um espaço para as crianças pesquisarem sobre qualquer coisa e estudar”, disse Stefani.

Atualmente, 10 mulheres fazem parte da SDV Reciclando e cinco delas estão afastadas por configurarem grupo de risco para a Covid-19. Porém, a equipe conta com um integrante homem, Adriel Ferreira, 21.  

Comprovando o que já sabíamos, a história das gurias é um dos diversos exemplos de pessoas que encontraram na reciclagem uma possibilidade de sair da estatística do desemprego e enfrentar uma luta diária para o combate à fome e a pobreza. “Hoje em dia, nós somos uma grande rede de apoio para todas. Creio muito que todas as pessoas olham diferente para um catador na rua e é por nossa causa! Nós temos valor e somos importantes para o mundo, fazemos um trabalho essencial”, concluiu Paula. E mostrando resiliência e coragem gritaram: “É as guria!”.


Por Jady Mathias Peroni – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 97



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