Você é multicarreira?

Publicado em: 18 março - 2021

Leia todas


Profissionais que desenvolvem diversas carreiras tendem a conquistar mais espaço no mercado de trabalho atual, pois ampliam suas habilidades comportamentais e a visão de mundo e das dinâmicas do mercado

Somos a soma de nossas vivências e escolhas. O acúmulo de experiências é fundamental à formação de um profissional diferenciado, ajuda a desenvolver competências, principalmente comportamentais, e investir no que se conecta ao propósito de vida. É esse entendimento que norteia os profissionais multicarreira, sejam eles pessoas que desenvolvem uma sequência de diferentes carreiras ao longo da vida, ou os que abraçam várias ao mesmo tempo. 

Diego Menão, Gerente de Sustentabilidade e Cooperativismo da Sicredi União PR/SP

Hoje, Diego Menão é gerente de Sustentabilidade e Cooperativismo da Sicredi União PR/SP, mas traz na bagagem experiências em carreiras distintas, trilhadas ao longo dos anos. Ele recorda seu primeiro emprego como recreador, uma carreira de cinco anos, e reconhece que a partir dessa vivência desenvolveu competências o levaram a seu atual momento profissional, como falar em público, criatividade, adaptabilidade, improviso, relacionamento humano. Depois disso, assumiu por dez anos a carreira de professor no ensino superior, alguns deles inclusive já dividindo o tempo com cargos de gestão em organizações, carreira atual em que segue assumindo novas áreas e desafios. Há seis meses, por exemplo, deixou a gestão de marketing e comunicação para implantar a área que envolve sustentabilidade e responsabilidade social na cooperativa. “A multicarreira é fundamental para se adquirir novas competências, conhecer-se melhor, conhecer sobre pessoas e novos campos de atuação. É necessário transitar em outras áreas para que o profissional possa ser melhor naquela em que se especializou”, pondera.

O autoconhecimento é importante para a definição de quais carreiras investir. Menão relembra, por exemplo, a experiência de um único dia trabalhado em novo emprego. “No segundo dia não voltei mais, agradeci a oportunidade e expliquei que aquele trabalho não havia se conectado à minha visão de mundo, ao que eu queria desenvolver. Mas, para entender isso tão rápido, é preciso compreender claramente a sua função social, o que deseja ser no mundo, para poder encontrar o trabalho que te permita realizar isso”.

Humberto Wahrhaftig, Diretor Regional da PageGroup

O executivo interpreta que, há alguns anos, as pessoas tinham mais receio de se lançar em diferentes experiências profissionais e serem vistas como inconstantes ou sem foco. Mas, que esse entendimento tem ficado para trás no mundo corporativo. “Eu inclusive considero isso tudo quando vou contratar alguém. Procuro olhar se a pessoa desenvolve outras habilidades que vão além da sua prática diretamente profissional”, revela. “Vejo esse tipo de profissional com mais preparo para enfrentar os desafios que a vida corporativa impõe de adaptabilidade, capacidade de comunicação, criatividade, visão de mundo, que só se consegue transitando em várias áreas”.

Humberto Wahrhaftig, diretor regional da PageGroup, empresa de recrutamento executivo, concorda que o profissional de gerações anteriores objetivava fazer carreira em uma única empresa, geralmente trabalhando na mesma área. Uma época em que o conhecimento técnico especializado era muito valorizado. E que, de fato, atualmente os desafios são outros. “O conhecimento técnico torna-se obsoleto rapidamente. É preciso aprender a reaprender constantemente; e ter habilidades comportamentais como inteligência emocional, autonomia, pró-atividade, automotivação são diferenciais e facilitam essa construção multicarreira”, diz. “E se a pessoa conseguir gostar do que realiza, há um bom avanço da ligação com seu propósito, motiva e torna a jornada em qualquer carreira mais simples. Mas, se vir que de fato não gosta daquilo, talvez seja o momento de uma mudança”, aconselha.  

Crismeri Delfino Corrêa, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos do Rio Grande do Sul (ABRH-RS)

“Quando tudo é muito homogêneo, linear, o aprendizado e a carreira ficam limitados. E o profissional que a gente espera é esse, mais capacitado, que busca amplo aprendizado. Com multicarreiras também vem multiconhecimentos, o que ajuda a conquistar maiores credenciais e pode render inclusive melhor empregabilidade”, analisa Crismeri Delfino Corrêa, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos do Rio Grande do Sul (ABRH-RS). Para Crismeri, seguindo seu momento de vida e autoconhecimento, os profissionais se dispõem mais a fazer o que sempre gostaram, mas, por circunstância de vida ou questão emocional, tiveram de manter carreiras que não lhes dava tanto prazer. É o caso, por exemplo, de Kelly Cristina da Silva que, ao se avaliar, decidiu que era hora de se tornar multicarreira para ser mais feliz.

Entre áreas diversas

Kelly Cristina da Silva

Sem medo de se arriscar, Kelly decidiu mudar de caminho. Deixou a carreira corporativa e agora administra diversas carreiras ao mesmo tempo. Ela revela que arte é sua paixão antiga, e gostaria de ter cursado a faculdade de artes cênicas, mas à época seguiu os conselhos da família e optou por uma graduação que, acreditavam, pudesse oferecer maior estabilidade. Estudou então publicidade e propaganda, especializando-se em gestão de marcas. Atuou na área de marketing em empresas do ramo de construção civil por 15 anos. À medida do possível, tentava conciliar o emprego com apresentações musicais, mas não era o suficiente para se sentir realizada. Ela enfrentou crises de ansiedade, depressão, até síndrome do pânico. Com terapia, descobriu que o remédio poderia ser mudar a carreira. “Decidi sair do mundo corporativo e me dedicar à música. Apesar de gostar de marketing, o que me faz feliz mesmo é cantar”, assegura.

Há três anos, ela iniciou um processo de transição. Enquanto se prepara para se dedicar exclusivamente à nova carreira cursando graduação em música, avaliou que poderia oferecer ao mercado o conhecimento acumulado ao longo dos anos. Neste momento, presta serviços em marketing, assumiu a carreira de professora de canto e de inglês, e ainda usa o talento em escrita como redatora de conteúdo online. “Fui conhecendo novos clientes e está dando certo”, comemora. Kelly revela que após essa guinada, os problemas de saúde ficaram para trás. “Hoje vivo com menos, mas há três anos não fico mais doente, porque estou feliz”, afirma. “Sou otimista. Acredito que o que a gente sonha, é capaz de realizar; e a primeira pessoa que tem que acreditar em você é você mesma”.

A especialista em recolocação profissional Ana Chauvet orienta que, para o profissional descobrir se tem perfil multicarreira é preciso fazer como Kelly e Menão: olhar para si, entender seus pontos fortes e fracos, desenvolver inteligência emocional e saber administrar bem o tempo, que sempre é conectado diretamente à produtividade de alta performance. “Principalmente com a pandemia, que foi um acelerador de futuro, as pessoas passaram a buscar mais oportunidades baseadas na felicidade delas, no que lhes faz sentido”. Para a especialista, “é importante experimentar [novas carreiras], porque essa é uma tendência e quem estiver melhor adaptado vai sair na frente e se desenvolver mais rápido”.


Por Nara Chiquetti – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 98



Publicidade