Celebridade


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A academia estuda, avalia e aponta caminhos para o cooperativismo

Por mais que 15 minutos de fama possam ser suficiente para muitas pessoas, ser tema de estudos e de projetos acadêmicos ainda é a real constatação da importância para uma atividade, tendência ou ideologia. No caso do cooperativismo, o interesse que desperta pode, também pelos números, ser facilmente comprovado. Informações do Observatório do Cooperativismo sobre a produção acadêmica brasileira referente ao cooperativismo mostram que até agosto de 2013, havia 3,7 mil produções acadêmicas vinculadas ao tema cooperativismo, distribuídas entre artigos, dissertações de mestrado, teses de doutorado, livros anais de congressos e capítulos de livros publicados.

Essa pesquisa quantitativa também identificou os principais pesquisadores em cooperativas, onde eles estão localizados, a quais instituições estão vinculados e como está a distribuição geográfica da pesquisa transformada em produção acadêmica. Foi realizada com base apenas nos trabalhos listados na Plataforma Lattes, ferramenta criada e mantida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), para facilitar as ações de planejamento, gestão e operacionalização do fomento à pesquisa, tanto da instituição quanto de outras agências de fomento à pesquisa, tanto federais quanto estaduais, e de instituições de ensino e pesquisa. Também conhecida como Curriculum Lattes, integra as bases de dados de currículos, grupos de pesquisa e instituições, em um único sistema de informações, das áreas de Ciência e Tecnologia, atuando no Brasil.

Sigismundo Bialoskorski Neto, pesquisador e um dos idealizadores do observatório, apesar do volume, garante que a evolução da presença do cooperativismo nos trabalhos acadêmicos, “não é significativa. Na realidade, é mais lenta em função de que o tema cooperativismo não ser facilmente escolhido pelos pesquisadores e alunos de pós-graduação e pelo fato de não haver políticas que incentivem essas pesquisas no Brasil”.

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Eduardo Mielke.

 

Eduardo Jorge Costa Mielke, professor e coordenador do Núcleo de Pesquisa em Cooperativismo e Políticas Públicas de Turismo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e membro do Observatório do Cooperativismo, ressalta que “o próprio interesse pelo cooperativismo advém da percepção de que o movimento cooperativo traz melhores resultados para os indivíduos que dele pertencem.”

 

 

Integração com as cooperativas

A universidade ajuda o cooperativismo por meio de pesquisa acadêmica, da inovação em processos, oferecendo cursos especializados, e formando recursos humanos. Essa afirmação do professor Bialoskorski é complementada por Mielke, que percebe dois grandes papeis da universidade: trazer informações úteis na melhoria das políticas públicas atuais com indicadores que possibilitem verificar os impactos e as percepções de tais políticas e analisar, com modelos apropriados, os processos de gestão de empreendimentos cooperativistas, mais precisamente sobre as questões de governança e acesso a mercado.

A neutralidade de que a universidade goza em suas pesquisas e nos seus respectivos resultados, para Mielke, contribui para a realização de estudos de como os custos são absorvidos (no caso das instituições públicas sobretudo) pela própria engrenagem institucional.

Os dois professores concordam na necessidade de mudanças e de focar em gestão, governança e inovação. Bialoskorski cita a necessidade de ampliar a capacidade de intercooperação, pois, embora existam no Brasil exemplos de sucesso nos ramos agrícola, de crédito e de saúde, “ainda é necessário resolver diversos problemas de gestão e governança, incentivar e aglutinar o cooperativismo para que esse ganhe força em diversos setores econômicos de forma intercooperativa”.

O professor da UERJ – que dedica-se a pesquisas na área do desenvolvimento regional e local pelo cooperativismo, gestão e planejamento de cooperativas de Turismo e Lazer – ressalta a necessidade de esses estudos serem realizados a partir do enfoque do gestor cooperativo, “na medida em que ele é que tem as informações de mercado tão necessárias a investigação acadêmica. Em outras palavras, universidade e cooperativas devem traçar estratégicas de atuação em conjunto com o intuito de estruturar uma verdadeira cadeia de conhecimento de médio e longo prazo”.

Mielke, tomando como base o ramo a que dedica sua atenção, cita um gargalo importante ao desenvolvimento da atividade: “o número de indivíduos para este tipo de cooperativa ainda é um fator limitador. Não pela gestão em si da cooperativa, mas pelo processo de formação de um grupo que esteja disposto a se comprometer com um coletivo colaborativo dentro do viés democrático. Para a realização da atividade turística dez pessoas representando suas empresas são mais do que suficiente para que o desenvolvimento local e a geração de renda e emprego ocorram. Na medida em que há envolvimento de um grupo menor, naturalmente outras pessoas se aproximam”.

Usando seus 11 anos de experiência em seis Estados como base, garante que este processo é recorrente. Pede, ainda, ajuste na questão tributária pelo fato da sobreposição de impostos que ocorre na atividade turística, “o que diminui o interesse pelo envolvimento das pessoas em primeiro plano. É preciso, ainda, maior período de convencimento dos benefícios diretos e indiretos da cooperativa de turismo aos empresários que querem optar pela cooperativa em detrimento de uma associação, mesmo que esta possa comercializar serviços”.

 

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João Passador

Conflito

Colega de Bialoskorski na FEA-RP, João Luiz Passador tem formação em Administração de Empresas e Direito, sendo doutorado pela Fundação Getúlio Vargas e dedicando-se à pesquisa de redes interorganizacionais, políticas públicas de desenvolvimento e educação formal de gestores. Ao destacar o perfil heterogêneo das cooperativas – algumas mais empresariais e outras que consolidam a cultura da cooperação – defende a aproximação entre a academia e as cooperativas e alerta sobre o perfil do gestor da cooperativa, que no dia a dia caminha entre a “cultura interna da cooperativa, que se aproximada solidariedade econômica, e da fronteira da cooperativa para fora, quando enfrente o modelo concorrencial do capitalismo, em franca oposição ao primeiro”.

Essa dualidade, garante Passador, leva o gestor a ter de saber lidar com esses dois cenários de maneira adequada, situação para a qual “os gestores em geral estão pouco preparados, necessitando, assim, de formação”.

Passador lista entre as iniciativas existentes, as ações do Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop), mas cobra um projeto de formação focado nas necessidades específicas das cooperativas, traçando um esboço: “a formação pode envolver só instrumentos de gestão. Tem um componente ético importante, pois o que é certo ou errado parte da escolha do gestor. Faltam competências mais humanistas, como Ciência Política, para ter domínio dos conceitos de democracia, solidariedade orgânica, além de disciplinas que lhe possibilitem tirar os máximos benefícios de recursos limitados vinculados ao setor da economia em que a cooperativa atua”.

Sugere, ainda, que, com base no que foi desenvolvido em países escandinavos e em Mondragon, por exemplo, “possamos criar um padrão nosso, aproveitando as boas práticas de fora, ficando muito atentos ao movimento internacional para trocar experiências”.