LIDERANÇA EM REDE


LIDERANÇA EM REDE


Um tema que vem sendo debatido há já algum tempo é a falta de lideres no mundo moderno. Falta quem dê rumos à humanidade que vai assim, sob a égide da economia globalizada, avançando erraticamente através dos anos.

Onde estariam um Churchill, um Stalin, Kennedy, Mao Tse Tung, Adenauer, Hitler, Charles de Gaulle?

Gostássemos ou não de cada um deles, eram figuras de presença global, mostrando a seus milhares de seguidores a direção a seguir.

Talvez não haja mais espaço para este tipo de liderança carismática e dominante, em função de diversos fatores. O primeiro deles é o melhor nível de informação e educação em todos os países do mundo. Com isso, as pessoas querem ter maior participação na governança de seus destinos, com reflexo em maior cobrança dos governantes. O segundo é o poder impressionante das redes sociais, cuja atuação nos últimos anos mostra resultados inimagináveis há 10 anos: a queda do ditador egípcio Mubarak, do líbio Gaddafi, a primavera árabe de maneira geral, o Occupy Wall Street, as manifestações de rua de junho do ano passado em todo o Brasil, entre outros eventos notáveis.

Em nenhum deles houve uma liderança individual: o chamamento aos manifestantes foi feito através das redes sociais, sem compromisso com partidos políticos e nem sempre com objetivos claros. O lugar comum era o descontentamento com o status quo, um profundo desejo de mudanças, culminando em ações radicais de tomada de poder, ou em resposta rápida dos governos ameaçados, atendendo às demandas, por mais difusas que fossem.

O maior problema deste “comando coletivo sem objetivo definido” é o risco de aproveitamento do espaço por pessoas mal-intencionadas e bem falantes com propostas eventualmente anarquistas ou de destruição gratuita, como o que já ocorreu com os chamados “black blocs”. É verdade que os movimentos mais bem articulados em defesa de interesses específicos não aceitam a participação deste tipo de vândalos, e nem mesmo as manifestações difusas, mas eles são treinados para isso e sempre aproveitam as oportunidades. Por outro lado, a população pacífica não aceita violência e já exige que as forças policiais assumam maior controle destas situações. Ocorre que nem sempre a polícia está preparada para os enfrentamentos que surgem e, muitas vezes, sua ação de restrição à baderna se transforma em violência descontrolada. Tudo isso é compreensível: no meio de uma refrega em que sua segurança física está em risco, sua reação pode ser a pior possível.


Mas não é este o tema em foco. O tema é: na ausência de lideres globais individuais, seriam as redes sociais uma alternativa para liderança nova?

É preciso discutir este tema em profundidade, porque por trás de tudo está a dramática necessidade de defender a democracia, em seu conceito mais amplo. Estaria ela em risco?

Talvez…

Os efeitos da economia globalizada e do forte liberalismo comercial restringido por protecionismos gigantescos, levam os governos de cada país a perder a condição de resolver todos os problemas de seus cidadãos: a vaso-comunicância entre economias das diferentes sociedades, com demandas e exigências crescentes pelas camadas sociais ascendentes, e o complicado emaranhado burocrático das instituições das Nações Unidas vão tirando dos governos seu poder de decisão sobre temas internos.

A sociedade insatisfeita com os resultados do governo de plantão acaba votando e elegendo as oposições. Estas, por sua vez, premidas pelas mesmas circunstâncias, também não resolvem as questões centrais e terminam escorraçadas na eleição seguinte. Se o fenômeno se repete ao longo dos anos, o conceito de democracia vai se erodindo, ainda que apenas no subconsciente dos cidadãos de bem, que, por sua vez, querem participar cada vez mais da governança, exigindo mudanças. E pior, enxergando países não democráticos terem crescimento econômico e avanços sociais muito maiores que nas democracias, ficam imaginando se um “choque de gestão” não passaria por um “endurecimento” relativo: seria um desejo inconfessável de poder arbitrário?

Isso seria o fim do mundo, mas há o risco.


Ora, como compatibilizar esta crescente demanda por participação democrática com a incapacidade dos lideres mundiais de darem rumos ao planeta? Como conseguir que este imenso poder potencial concentrado nas redes sociais seja direcionado de forma definida para o bem estar universal, mantida a democracia?

Talvez tenha chegado a hora de mudar a forma de liderança, criando um poder formal através das redes sociais.

Mas teria que ser um movimento profundamente lastreado em valores e princípios aceitos em todos os quadrantes, e que construíssem a base doutrinária que garantisse a perenidade da democracia – inclusive a econômica – preservados os direitos individuais, a transparência, a honestidade, a solidariedade entre as pessoas e os povos, a igualdade entre todos, o capital social e compromisso com o bem estar coletivo.

Em outras palavras, uma doutrina com tais valores apontaria as soluções para todo e qualquer problema de pessoas, sociedades e países. Educação, saúde, segurança, mobilidade, acesso aos fatores de produção, justiça plena, segurança alimentar, defesa do meio ambiente, cooperação, tudo estaria colocado na agenda, via redes sociais.


Epa, cooperação? Cooperação? Cooperativas? Cooperativismo?

Porque não?

O cooperativismo é uma doutrina baseada em 7 princípios aceitos por todos os países do mundo, independente de seus regimes políticos, econômicos ou religiosos. E assim se transforma em um movimento forte, baseado nos valores já referidos, com poderosa ênfase na defesa da democracia.

Mais do que isso: há 1 bilhão de pessoas filiadas a algum tipo de cooperativa. Se cada associado destes tiver 3 dependentes, este gigantesco contingente de pessoas chega a 4 bilhões, mais da metade da população da Terra!

E ainda mais: está organizado em todos os países e, internacionalmente, tem uma poderosa cúpula representada pela Aliança Cooperativa Internacional, guardiã da doutrina, considerada como instituição assessora da ONU na luta pela paz e pelos direitos humanos.

As cooperativas, agentes da doutrina, são empresas baseadas em valores, que prestam serviços a seus associados com o objetivo de lhes permitir a escalada social através de ganhos econômicos. Mas as cooperativas não buscam lucro para si mesmas e, de acordo com o novo sétimo princípio do cooperativismo, devem se preocupar tanto com seus associados quanto com a comunidade onde estiverem inseridas.

Portanto, são agentes em busca do bem estar, da felicidade das pessoas comuns, das famílias e comunidades.

Parece um interessante caminho a buscar.

Mas é evidente que isso implica alguns pontos bastante complexos.

Em primeiro lugar, é preciso que a Aliança Cooperativa Internacional assuma a responsabilidade de coordenar este projeto e faça um gigantesco esforço para convencer aos membros filiados em todo o mundo deste seu papel na história contemporânea. Superada esta fase, que é por si só um portentoso desafio, é preciso convencer do valor das cooperativas aos demais seguimentos sociais alheios ao movimento e, eventualmente, até aqueles que consideram as cooperativas como adversárias. Claro que tal procedimento demanda monumental esforço de comunicação na direção correta.

Realmente, é um sonho e tanto, mas alguma coisa já se caminhou nesta agenda, desde que a ONU declarou o ano de 2012 como o Ano Internacional das Cooperativas, a partir do que a ACI elaborou um amplo programa de ação para a Década seguinte, durante a qual espera ampliar o número de cooperativas e de cooperados em todos os países, novas legislações nacionais aprovando o movimento e a criação e fundos financiadores da cooperação.

Basta incluir neste glossário um novo projeto, o da assunção de um modelo global de liderança e governança.

Talvez, para dar maior visibilidade a este tema, fosse indispensável conseguir o Prêmio Nobel da Paz para o Cooperativismo. Isto será um formidável ponto de partida para cooptar gente para este projeto, inclusive jovens, sempre idealistas e em busca de um mundo melhor para toda gente.

 

 

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