Cooperativas de crédito querem conquistar Brasil

Publicado em: 17 abril - 2017

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Época NEGÓCIOS adverte: é provável que o emaranhado de números disposto nas próximas linhas provoque algum tipo de vertigem (e inveja) entre os leitores. Nesse caso, o que se pode dizer é “calma, lá!” – vale a pena entendê-los e, todos, cada um a seu tempo, serão esclarecidos. Isto posto, alguém tem ideia de quanto a Coamo cresceu no ano passado? Foram 22,8%, atingindo o rechonchudo faturamento de R$ 10,6 bilhões, o que a colocou no grupo das 50 maiores empresas do país. E a Lar? Ela avançou 30%, com vendas totais de R$ 4 bilhões. Tem também a Cocamar (salto de 15,8%, com receita bruta de R$ 2,7 bilhões), a Castrolanda (expandiu 15,6% e amealhou R$ 2,2 bilhões) e, só para encurtar a lista, o Sicredi, cujo resultado foi multiplicado por três desde 2011, somando R$ 1,5 bilhão em 2015.

Dito isso, vamos às dúvidas. Ou melhor, à maior delas: afinal, quem são Coamo, Lar, Cocamar, Castrolanda e Sicredi, nomes cuja presença no noticiário econômico, apesar do faturamento parrudíssimo, é no máximo tangencial? São cooperativas. E, hoje, elas representam um fenômeno. Mesmo porque conquistaram tais índices de crescimento e vendas aqui mesmo, no Brasil – aquele país cujo produto interno bruto, o PIB, desabou 3,5%, em 2015 (a previsão é de queda de 3,3% em 2016). “Como a água da economia brasileira baixou nos últimos anos, agora estamos vendo uma floresta que antes estava submersa”, diz Alex Ferraresi, professor da escola de negócios da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). “Com isso, percebemos que a árvore do cooperativismo estava entre as mais altas. Antes da crise, ninguém conseguia vê-la com nitidez.” Resta esclarecer como a “espécie cooperativa” sobressaiu em meio à recessão da flora empresarial.

Uma espécie diferente

Não há nada de novo com a ideia de cooperativas. Ela é para lá de centenária. Ainda que a prática fosse anterior, a primeira organização desse tipo – formalmente reconhecida como tal – remonta a 1844. Chamava-se Sociedade Equitativa dos Pioneiros de Rochdale. Foi criada na Inglaterra, por 28 operários de orientação entre socialista e cartista. Eles se encontravam sob a forte ameaça da mecanização, que se formou como um rabo de foguete no encalço da Revolução Industrial. Como forma de proteção, o grupo reuniu economias e fundou uma loja, onde revendia itens básicos como manteiga, açúcar e farinha, além de tabaco e chá. Era uma cooperativa de consumo. Compravam em conjunto e dividiam os resultados. Consolidou-se ali a base de um movimento que, grosso modo, defende a seguinte lógica: juntos, produtores (comerciantes, artesãos, profissionais liberais, artistas…) se fortalecem e podem sobreviver em um ambiente hostil (no caso, o mercado) – e, se tudo der certo, todos podem até prosperar. É a velha máxima do “juntos, venceremos”, aplicada ao modo de produção.

No Brasil, essa forma de organização, na prática, socioeconômica, é amplamente difundida na Região Sul. Em grande parte, isso é resultado da colonização desse trecho do país, marcada pela incursão de sucessivas levas de imigrantes alemães, holandeses, poloneses, ucranianos, italianos e japoneses. Essa turma já trazia na bagagem a prática do cooperativismo, e a usou por aqui como um anteparo diante da nova – e não raro inóspita – paragem. E havia de tudo: até associações de cunho político, com feitio anarquista, ou mesmo, confessional.

Hoje, chama a atenção a força das cooperativas no Paraná. Em uma lista das 50 maiores empresas do sul do país, elaborada pelo jornal Valor Econômico, constam 13 cooperativas. Delas, 11 são paranaenses. No mês passado, Época NEGÓCIOS percorreu perto de 900 quilômetros do interior do estado, passando pelas cidades de Maringá, Campo Mourão, Guarapuava e Castro, e seguindo até Curitiba, para conhecer o modelo de negócios desses grupos empresariais. O que se vê ali é um mundo tão admirável quanto desconhecido do público em geral.

Um mundo de gigantes

Observadas isoladamente, as principais cooperativas paranaenses são gigantes. Quinze delas têm faturamento superior a R$ 1 bilhão. Em sete anos, contados até 2015, esse “grupo das bilionárias” ganhou nove integrantes. Eram apenas seis em 2008. Vistas em um só bloco, então, elas representam uma potência. Juntas, têm receita bruta de R$ 60,4 bilhões (as dez maiores detêm 61% desse total). Uma estimativa da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar) indica que esse faturamento conjunto pode atingir R$ 100 bilhões em 2020.

Investimentos? Em 2014, eles somaram R$ 2,8 bilhões, o maior desde 2010. Desde então, o montante caiu, chegando a R$ 2,1 bilhões no ano passado, mas deve se manter nesse patamar nos próximos anos. A previsão da mesma Ocepar é que, no acumulado, essa cifra se aproxime de R$ 10 bilhões entre 2016 e 2020. Nada mal para um país onde o principal indicador de aportes, a formação bruta de capital fixo, apresenta queda constante. Ela foi 12,7% inferior em julho deste ano, se comparada ao mesmo mês de 2015.

Outro dado inesperado diz respeito à geração de empregos. No ano passado, enquanto foram fechados 74 mil postos de trabalho no Paraná, as cooperativas contrataram 4 mil pessoas. Algumas delas enfrentaram uma situação surreal: a escassez de mão de obra em suas regiões. A Copacol, por exemplo, resolveu construir um condomínio de moradias para atrair gente vinda de outras cidades. Ela chegou a buscar trabalhadores em um raio de até 120 quilômetros de distância de sua sede, em Cafelândia, no oeste paranaense, um pequeno município com 17 mil habitantes.

Como isso acontece?

Em grande parte, a pujança das grandes cooperativas paranaenses está relacionada ao setor de onde provêm – o agronegócio, que acumula bons resultados na última década. Das 220 organizações desse tipo existentes no estado, 74 nasceram na roça. Mas o modelo espalhou seus tentáculos por todos os lados: outras 56 atuam na área de crédito, 33 na saúde, 26 no transporte, 12 em educação e 9 em infraestrutura. Isso além de segmentos como o trabalho (que reúnem agrônomos ou caminhoneiros, por exemplo), turismo, lazer, consumo e habitação.

Ocorre que, mesmo as que tiveram origem no campo, já não podem ser definidas como agrícolas. Isso porque uma busca frenética por valor agregado e por uma maior estabilidade nos negócios fez com que elas se transformassem em imensos complexos agroindustriais, altamente verticalizados. Estão presentes em todas as etapas de uma longa cadeia produtiva, que vai do campo até as gôndolas dos supermercados. Ela inclui a pesquisa aplicada, a produção das matérias-primas (commodities), o armazenamento, a logística, a exportação, a industrialização, o marketing e as vendas no varejo com marcas próprias.

A Coamo é assim – um gigante. Com receitas globais de R$ 10,6 bilhões, ela assumiu no ano passado o posto de maior empresa do Paraná, superando a estatal de energia Copel e a montadora Renault. Fundada em 1970, e com sede em Campo Mourão, reúne 28 mil cooperados, sendo 75% pequenos e médios produtores. Espalha-se por 68 municípios no Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. No interior paranaense, é inevitável que o viajante se surpreenda com a profusão de silos da cooperativa, espalhados ao longo das rodovias. São imensos cilindros prateados, como prédios que brilham ao sol. Parecem discos voadores entupidos de grãos, estacionados na beira das estradas – e prontos para decolar.

Na Coamo, tudo é industrializado. A soja vira óleo, gordura hidrogenada, margarinas. O conglomerado tem ainda uma torrefadora de café, onde processa 100% dos grãos que recebe. Conta ainda com duas fiações de algodão, além de dois moinhos de trigo. Um deles, novinho da silva, foi inaugurado no ano passado e custou R$ 100 milhões. A cooperativa atua ainda no varejo com quatro marcas próprias e – não perca o fôlego – mantém uma cooperativa de crédito e outra de seguros.

 

Fonte: Época NEGÓCIOS



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