O que é inovação e como isto pode gerar resultado para cooperativas?

Publicado em: 25 maio - 2021

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Inovação é uma palavra sedutora. O novo, o original e o inédito atraem a atenção e o desejo. No entanto, o conceito ainda é incompreendido por boa parte dos gestores, qualquer que seja o seu setor de atuação. Talvez por esse motivo, o termo inovação às vezes se veste de significados diversos e até mesmo imprecisos. Quem nunca ouviu alguém se dizer inovador apenas por ter tido uma boa ideia?

O Manual da OCDE sobre inovação, referência internacional sobre o tema, define inovação como um produto ou processo novo ou melhorado que difere significativamente dos produtos ou processos anteriores da organização e que foi introduzido no mercado (produto) ou colocado em uso pela organização (processo).

Esse conceito traz algumas características que devem ser observadas. Em primeiro lugar, um requisito mínimo para que algo seja considerado inovação é que tenha características significativamente diferentes daquelas contidas nos produtos ou processos anteriormente oferecidos pela organização. Além disso, é importante que o produto ou processo inovador tenha sido disponibilizado para os usuários.

E por que inovar é tão importante?

Inovações geram valor para as organizações. O valor de inovações específicas pode ser incerto, pois o novo produto só poderá ser completamente avaliado algum tempo após sua implementação. Contudo, as organizações que não inovam tendem a não sobreviver em ambientes dinâmicos e competitivos.

Vantagem competitiva é um conceito fundamental para entender a importância de as organizações se orientarem para a inovação. Esse conceito tomou força a partir do final do século passado. Um de seus principais expoentes, Kevin Coyne, destaca que a diferenciação em características chave de produtos é essencial para que uma organização desenvolva vantagem competitiva em relação aos seus concorrentes. Tal vantagem será sustentável ao longo do tempo se essa diferenciação for durável. Por conseguinte, um fator necessário para o desenvolvimento de vantagem competitiva sustentável é a habilidade da organização para inovar.

Em suma, quanto maior a capacidade de inovar, maior será a chance de determinada organização desenvolver uma vantagem duradoura em relação aos seus concorrentes. De modo contrário, se as organizações não aprimorarem o que oferecem ou a forma como criam e entregam seus produtos, é possível que serão ultrapassadas por aquelas que o fazem. É improvável que a simples imitação, ou adoção de conhecimento já disponível no mercado, leve a um desempenho econômico superior sustentável.

E as cooperativas?

Quando se trata de organizações cooperativas, é importante levar em conta suas idiossincrasias. Conforme abordado no artigo “Inovar com propósito: a estratégia para cooperativas financeiras lidarem com o ambiente dinâmico”, publicado no Estadãov, essas organizações, quando atentas aos valores do cooperativismo, tendem a inovar com propósito, ou seja, atendendo aos interesses da comunidade, de forma democrática, sustentável e responsiva às necessidades locais.

Não se pode deixar de considerar que essas organizações operam em mercados dinâmicos e competitivos. Tomando as cooperativas financeiras como exemplo, é imprescindível pensar nas mudanças que as FinTechs provocaram no mercado financeiro, bem como nos desafios apresentados pelo Open Banking.

É fato que cooperativas financeiras não são bancos, mas precisam sobreviver em um mercado cada vez mais competitivo. Essas organizações têm um duplo desafio: não podem perder a sua essência e não podem deixar de ser competitivas. É importante que sejam capazes de inovar com propósito, ou seja, sem deixar de lado a essência do cooperativismo. A boa notícia é que as cooperativas financeiras têm sido responsivas à necessidade de inovação tecnológica, conforme destacado no artigo “Cooperativismo High-tech”, publicado na HSM Management. 

Um exemplo de inovação capaz de gerar vantagem competitiva e, ao mesmo tempo, atender os interesses locais é o Espaço Coopera +, criado pelo Sicoob, em Porto Velho/RO, como forma de atrair o público jovem para a cooperativa. A partir da percepção de que os cooperados figuram em uma faixa etária mais elevada, iniciativas que busquem atrair cooperados mais jovens tendem a perpetuar a cultura do cooperativismo e conferir maior sustentabilidade à cooperativa.  

Nesse sentido, o Espaço Coopera + foi concebido no maior shopping da capital de Rondônia, como uma forma de operação com aspectos significativamente diferenciados. Em primeiro lugar, a equipe é formada apenas por gerentes, sem backoffice, com operações de tesouraria completamente digitais (ATM e Mobile). Diferentemente do atendimento tradicional realizado na agência, no Espaço Coopera +, o atendimento é informal, feito sem mesas. Além disso, o horário de atendimento também é diferenciado, não segue o mesmo horário das demais instituições financeiras, mas o das lojas de shopping, ou seja, das 10:00 às 22:00hs, inclusive aos sábados. Vale destacar também que o Espaço Coopera + possui uma estrutura física diferenciada. Há um pequeno auditório para 40 pessoas, sala de reunião, coworking com internet liberada de altíssima qualidade e um café. Isso é disponibilizado não só para os cooperados, mas para toda a comunidade.

Devido à integração de um lugar agradável, informal, com excelente infraestrutura aos serviços financeiros, este novo modelo acabou atraindo muitos jovens para a cooperativa. Atualmente muitos dos novos pontos de atendimento em diversas cooperativas pelo país vêm adotando algumas inovações aplicadas no Espaço Coopera +, como o ambiente descontraído, atendimento somente para negócios e alta tecnologia disponível. 

Como desenvolver capacidade de inovação?

As cooperativas possuem características que valorizam o processo de inovação. Essas organizações perseguem princípios que estão intimamente relacionados ao desenvolvimento de capacidades de inovação. Isto é, os princípios do cooperativismo, quando inseridos na cultura da organização, provocam o processo de inovação. 

É importante lembrar que os bens e serviços das cooperativas são de interesse coletivo. Além disso, são produzidos de modo a atender as necessidades locais, de forma democrática e sustentável. O propósito passa a não ser apenas consequência da inovação, mas algo anterior, que origina e alimenta o processo inovador.  

Nesse sentido, o Instituto Fenasbac, com o apoio do Banco Central, vem desenvolvendo o Reconhecimento Inovação com Propósito (com lançamento previsto para julho de 2021), voltado a identificar as capacidades de inovação de cooperativas financeiras. Esta ação tem o potencial de provocar a reflexão das lideranças do setor sobre o desenvolvimento de capacidade de inovação, servindo assim como referencial sobre o tema.


*Bernardo Oliveira Buta é Doutor em Administração Pública e Governo pela Fundação Getúlio Vargas. Coordenador-Técnico do Reconhecimento Inovação com Propósito no Instituto Fenasbac

*Renato Zugaibe Doretto é Dirigente da Sicoob Credisul no Norte do Brasil, Presidente Estadual da  Junior Achievment/RO e Conselheiro Fiscal no SESCOOP/RO



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